A Apple precisa mais da Electronic Arts do que a Electronic Arts da Apple

Ao manifestar o interesse de comprar a Electronic Arts, a Apple sinaliza para o mercado que ela própria sabe que o Apple Arcade é apenas uma tentativa meia-boca de entrar no segmento de jogos.

Uma das categorias favoritas de especulação dos comentaristas da Apple (minha, inclusive é): “Gastar o dinheiro de Tim Cook”. Especialmente quando a época de boas notícias está em baixa, não faltam teorias sobre como a Apple deveria comprar a Netflix, o Spotify, a Tesla, a Nintendo, a Peloton, o Yelp, a Disney, etc, etc, etc.

Algumas dessas compras, a Netflix, por exemplo, fazem sentido do ponto de vista estritamente estratégico. A lógica costuma ser: a Apple concorre ferozmente na categoria de streaming de vídeo, a Netflix é a principal concorrente, a Apple tem dinheiro suficiente para comprar a Netflix (especialmente agora que ela desvalorizou 75% em seis meses), logo, a compra poderia acontecer.

Outras compras, como no caso da Nintendo, viram hipótese por causa da afinidade entre os negócios das empresas. A Nintendo é vista como a empresa boazinha do mercado de jogos, com os seus jogos e consolas amigáveis para as famílias, franquias importantes como a do Mario, um modelo de negócio essencialmente inovador, mas responsável o suficiente para não gastar dinheiro, logo, a compra poderia acontecer.

Das poucas empresas que se enquadram nessa categoria, confesso que nunca vi a EA (Electronic Arts) como uma grande candidata. Na verdade, tirando a afinidade… espiritual com a Nintendo, nunca vi como uma grande candidata a ser comprada pela Apple qualquer empresa atuante do mundo dos jogos, afinal, a Apple nunca foi uma grande atuante no mundo dos jogos. Do Apple Pippin dos anos 90 ao Apple Arcade de atualmente, a Apple sempre pareceu abordar o mercado de jogos da forma errada. O Pippin, à época fabricado pela Bandai, sofreu com a falta de bons títulos e com um controlo de qualidade bastante duvidoso. Durou 1 ano. Já o Apple Arcade, lançado como um serviço de subscrição que contaria com pequenos títulos independentes feitos por estúdios promissores, só passou a realmente fazer algum tipo de sucesso quando ganhou títulos e franquias verdadeiramente relevantes, como Angry Birds, Lego, Sonic, Asphalt, e etc.

O que me traz de volta ao rumor desta semana da possibilidade da Apple comprar a EA (Electronic Arts). Quando penso na EA, acho que ela se enquadra nas duas categorias que citei acima. Ela tem uma afinidade estratégica, afinal, com o Apple Arcade a Apple passou a ver nos jogos uma promissora categoria de crescimento de faturamento (especialmente quando consideramos que os jogos faturam mais do que as indústrias fonográfica e cinematográfica somadas), mas também tem aquela que eu chamei de afinidade espiritual, por ser uma empresa que sempre foi vista como amigável, isolada de grandes escândalos como os recentes que acometeram a Activision Blizzard, e que consistentemente entrega produtos relevantes e com apelo para o seu público-alvo.

O único fator que parece ser estranho à forma como a Apple adquire empresas seria justamente o tamanho da aquisição. Via de regra, a Apple costuma fazer aquisições cirurgicamente estratégicas, de empresas que exigem um baixo investimento e que podem trazer um retorno desproporcionalmente positivo. Siri, NeXT, Dark Sky, Shazam e Topsy vêm-me à mente. Mas há exceções, é claro, a Beats, por exemplo, é de longe a maior aquisição que a Apple fez até hoje, seguida pela divisão de processadores móveis da Intel.

Ao manifestar o interesse de comprar a EA, a Apple sinaliza para o mercado que ela própria sabe que o Apple Arcade é apenas uma tentativa meia-boca de entrar no segmento de jogos. É como o lançamento do Planet of the Apps, frente a todo o potencial que existia por trás do Apple TV+. Com a compra da EA, a Apple poderia não só passar a ser a dona de uma invejável lista de franquias de jogos multiplataforma, mas poderia também passar a construir a própria plataforma de streaming de jogos a partir disso, o que aí sim poderia significar uma fonte de faturamento que, por mais que a Apple tente, nunca será atingida por meia-dúzia de títulos clássicos no Apple Arcade.

E quanto à EA, bem… além de conversar com a Apple, ela também já conversou com a Amazon e com a Disney a respeito de uma venda. Não sei quanto a vocês, mas parece-me que a EA já decidiu que quer ser vendida. Resta esperar para ver se ela acha tanto quanto eu que ela pode ter esse futuro promissor em Cupertino.