Lightning, USB-C, e a polémica sem fim de um detalhe irrelevante - Opinião

10 anos depois do seu lançamento, a existência do conector Lightning continua a gerar polémicas.

Pouca gente deve lembrar-se, mas o lançamento do conector Lighting deu origem a uma grande polémica envolvendo os iPads. O que ocorre é que o iPad 3 (com o conector de 30 pinos) havia sido anunciado em março de 2012, mas apenas 8 meses depois, a Apple anunciou o iPad 4 com um novo conector. Isso irritou bastante os utilizadores que haviam acabado de comprar o iPad 3, e que agora tinham em mãos um aparelho desatualizado em tempo recorde.

Pois bem. Cá estamos, 10 anos depois, e a existência do conector Lightning continua a gerar polémicas. Desta vez, pelo motivo oposto. Ao longo dos últimos anos, enquanto o mundo Android adotou de forma quase unânime o USB-C como padrão de carregamento e conectividade, a Apple seguiu firme na decisão de manter os iPhones munidos do conector Lightning. No caso dos iPads, a conversa tem sido diferente. Atualmente, quase todos os modelos já usam o USB-C ao invés do Lightning, com a exceção (que provavelmente está com os dias contados) do iPad normal. Isso veio depois da Apple ter adotado o conector nos Macs, onde a esta altura ele já é algo comum - apesar de uma certa fragmentação de compatibilidade com as diferentes versões da tecnologia Thunderbolt.

Mas não nos iPhones. Nos iPhones, a única movimentação que vimos nos últimos anos, foi o facto da Apple ter adotado o USB-C na outra ponta do cabo Lightning, onde ele se liga ao computador ou ao adaptador de energia. O resultado, especialmente para quem tem mais de um produto da Apple, é um festival de cabos, entradas, conectores e adaptadores pela casa, nenhum perfeitamente conversando com o outro.

Bem, agora é a parte do texto que eu devo confessar que nada disso realmente me incomoda. Eu nunca entendi a fixação das pessoas por este assunto, e já falei sobre isso diversas vezes em podcasts quando este assunto veio à tona. Mas sei que sou a exceção. E é por isso inclusive que vejo com tanta descrença o esforço que políticos europeus e americanos têm empregado em projetos de lei que têm como objetivo obrigar a Apple a adotar o USB-C nos iPhones. Essas leis, é claro, não são apresentadas dessa forma. Elas são apresentadas de uma forma bastante abrangente, valendo-se até de argumentos sobre o meio ambiente, lixo eletrónico, poder de escolha dos consumidores, etc, etc, etc. Mas a verdade é que num mercado em que a maioria das empresas relevantes já adotou uma especificação, e há apenas uma empresa de fora, um projeto de lei que unifique essa especificação não tem muita valia se o seu objetivo não for simplesmente obrigar essa última empresa a adotar a medida também.

Para quem acompanha as minhas colunas há algum tempo, a minha crítica a essa ideia não é novidade. Se essa lei tivesse sido criada no início dos anos 2000, possivelmente estaríamos todos presos com conectores de 30 pinos nos nossos dispositivos até hoje. Se ela tivesse vindo em outra altura, mais recente, ou mais antiga, poderia ser um USB-C, conector paralelo, P2, etc. Entendes o problema? Obrigar um mercado inteiro a adotar um padrão é a receita para engessar não só a evolução da tecnologia utilizada por aquele padrão, mas também as possibilidades que ela permite explorar. E deixar isso na mão de políticos como os americanos, que mostram-se incapazes de discutir qualquer aspeto técnico da tecnologia com um mínimo de profundidade, é a receita para o desastre.

Então, o que a Apple pode fazer a respeito disto? Bem, nos bastidores do mercado, ela já faz. Ela gasta muito dinheiro com lobbying em Washington e com a Comissão Europeia a fim de dar mais peso a medidas e decisões que… digamos… a favoreçam. Mas é claro que isso não é suficiente a longo prazo. A longo prazo – e rumores já trataram sobre isso repetidas vezes – parece que a intenção da Apple será eliminar completamente o conector do iPhone, recorrendo exclusivamente ao MagSafe como forma de carregar dispositivos e, no futuro, trocar dados. Tecnicamente, ao não utilizar nenhum conector físico, não tem como a Apple descumprir a ordem de utilizar um conector físico específico em detrimento de outros, se o dispositivo não tiver conector nenhum. É o caso do Apple Watch, por exemplo. Estas movimentações recentes, especialmente a nova movimentação vinda dos Estados Unidos, pode obrigar a Apple a acelerar esta mudança, apesar de ser bastante improvável que haja tempo hábil para isso acontecer nos próximos anos. Mas independentemente de quando isso vier, uma coisa é certa. Assim como tem sido nas últimas duas décadas, qualquer novidade nessa área será inevitavelmente uma fonte de polémica. Mesmo que a novidade seja que… não há novidades.