É curioso como, de repente, diversos assuntos separados parecem estar a transformar-se num grande amalgamado de problemas para a Apple.

Apenas nestas últimas semanas, ela teve de depor para o conselho americano de investigação de antitrust, tornou-se na primeira empresa americana a ultrapassar os dois triliões de dólares em valor de mercado (2 biliões na escala portuguesa), envolveu-se em polémicas com a Epic Games, Basecamp e WordPress (para citar apenas algumas) e, de acordo com os rumores, está a preparar-se para lançar pacotes de assinaturas dos diferentes serviços que oferece.

Até mesmo a boa notícia (ao menos para os investidores) do valor trilionário na Nasdaq foi recebida com ceticismo e pessimismo pelo mercado. Pudera: esta marca foi atingida justamente no momento em que nunca se discutiu tanto se é apropriada a forma como a Apple vem conseguindo alçar-se a este patamar. A coroa de empresa americana mais valiosa do mundo foi recebida com um certo constrangimento e com total consciência de que todos sabem a que custo ela atingiu esta marca.

É claro que seria de uma inocência gigantesca tentar olhar para a Apple com aquela visão idealizada da época de “Think Different”. Naqueles tempos, a Apple, em condição de azarão do mercado, tinha a empatia do grande público. Mas não podemos esquecer que, mesmo naquela época, o objetivo da Apple era basicamente o mesmo: ganhar o máximo de dinheiro possível em troca da fabricação de grandes produtos com forte identificação de identidade com o seu público. É bem verdade que hoje me parece que a primeira parte dessa premissa tem mais peso do que o resto, mas talvez esta seja uma discussão para outro momento (ou outro artigo).

Facto é que especialmente neste último mês, ficou claro que a Apple esgotou completamente o stock de good-will que ela pôde aproveitar por anos do grande público. Vai lançar um pacote de assinaturas? “Claro, para arrancar mais dinheiro dos clientes que já pagaram caro pelos produtos”. Virou uma empresa trilionária? “Claro, espremendo os desenvolvedores que são o motivo do sucesso da App Store”. Cometeu um engano com o WordPress? “Engano, nada! Se não fosse o contexto do momento, ela não teria voltado atrás!”

No meio disto tudo, não faltam dedos a apontar a ironia do facto da Apple ter virado o Big Brother que ela tanto criticou há algumas décadas, com destaque para o vídeo Nineteen Eighty-Fortnite divulgado pela Epic Games nas primeiras horas da grande polémica com o Fortnite. Parece que assim que a Apple deixou de estar fadada ao fracasso e à falência, ela imediatamente virou a epítome do capitalismo selvagem.

O que me traz ao rumor do Apple One: de acordo com a Bloomberg, a Apple provavelmente anunciará, em outubro, cinco planos combinando diferentes assinaturas em troca de um desconto em relação aos preços individuais.

O timming, claro, é perfeito. No 1º de novembro, o Apple TV+ completa 1 ano de existência. Caso parecido do Apple Arcade que completa 1 ano em setembro (e que, vale lembrar, é uma loja paralela de jogos dentro da App Store. Hmmm…). Já o natimorto Apple News+, lançado em março de 2019, é apenas uma nota de rodapé no leque de assinaturas da Apple. Mas certamente marcará presença como brinde de upsell em planos com coisas mais relevantes. Isto sem contar o iCloud e Apple Music que, aí sim, têm uma adoção em larga escala.

Digo que o timming é perfeito porque agora que as assinaturas espontâneas de cada serviço provavelmente já se estabilizaram, os pacotes trarão uma nova onda de assinantes, convencerão assinantes de alguns serviços a assinarem mais serviços e, claro, causarão a migração de utilizadores da concorrência em busca de aliviar um pouco o peso cada vez maior das múltiplas assinaturas mensais.

Qual será o resultado disto? Um novo boost no faturamento de serviços da Apple. Faturamento este composto não apenas por essas assinaturas, mas também por coisas como a comissão que ela cobra dos desenvolvedores na App Store. E um aumento bastante saudável no faturamento de qualquer área que não seja a do iPhone significa uma recepção calorosa por Wall Street que, por reconhecer oportunidades de crescimento sustentável, recompensará a Apple com uma valorização ainda mais estratosférica.

Antitrust. Valor de mercado. Desenvolvedores. Assinaturas. Antitrust. Valor de mercado. Desenvolvedores. Assinaturas. Antitrust, Valor de mercado… estás a perceber? Estes não são quatro assuntos separados. Este é um assunto só. E se antes conquistas como a valorização trilionária ou novidades como o pacote de assinaturas poderiam ter sido vistas com bons olhos pela comunidade de utilizadores da Apple, hoje os maiores interessados por isso tudo são os advogados de acusação de práticas monopolistas que, a cada boa notícia para a Apple, vêem os seus trabalhos nos tribunais se tornarem cada vez mais fáceis.