O argumento era diferente de tudo o que tinha sido feito até ao momento. See parecia ser uma lufada de ar fresco no panorama televisivo e correspondeu, pelo menos até ao meio da temporada. Mas a verdade é que os episódios finais deixaram muito a desejar, devido ao rumo seguido pela trama. Ainda assim, há uma segunda temporada confirmada, por isso, pode ser que nem tudo esteja perdido. Vamos à história?

Para quem nunca ouviu falar de See, esta é uma das produções da Apple TV+, com um grande nome no papel principal: Jason Momoa que talvez conheças como Aquaman ou como Khal Drogo de Game of Thrones. A história passa-se no futuro mas mais parece um retrocesso ao passado. Um vírus mortal dizimou a humanidade e os que sobreviveram perderam a visão. Os sobreviventes, agora cegos passaram a viver como medievais, em tribos, caçando e lutando entre si. Acreditam que a cegueira foi obra de Deus, como forma de impedir os humanos de se autodestruir completamente e a verdade é que com o passar do tempo, a humanidade adaptou-se perfeitamente à falta de visão.

Muito diferente dos habituais retratos de um futuro tecnológico, aqui vemos pessoas, totalmente cegas a viver de forma autónoma, utilizando ao máximo os restantes sentidos. Questionei-me muita vez como é que conseguiam pentear-se, construir cabanas e produzir roupas e calçado com diferentes materiais, apesar da falta de visão. Diria até que este é o ponto alto da trama, perceber como há pessoas com os sentidos mais ou menos apurados, e como, por exemplo, Baba Voss (Momoa) vence os seus adversários movimentando-se lenta e silenciosamente, ao mesmo tempo em que ouve todos os sons à sua volta.

Neste novo mundo, ter visão tornou-se uma heresia. Este era simplesmente um não assunto, e sempre que se suspeitava de que alguém pudesse ver, essa pessoa era perseguida e assassinada. Era o caso de Jerlamarel (Joshua Henry), um homem procurado pela Rainha Kane (Sylvia Hoeks) por conseguir ver. Acontece que em algum momento, Jerlamarel envolve-se com Magra (Hera Hilmar). Esta fica grávida e sozinha, acabando por ser encontrada por Baba Voss. Baba apaixona-se e, como não podia ter filhos, acaba por adoptar estas duas crianças, dois gémeos, filhos biológicos de Jerlamarel.

O grande conflito surge precisamente com o nascimento dos gémeos. Jerlamarel sabia que os seus filhos seriam como ele, com a capacidade de ver e deixou uma série de instruções para estes que, a dada altura, os levaria ao seu encontro. A dúvida sobre o que acontecerá às duas crianças prende o espetador até porque, por razões de segurança, estas são obrigadas a esconder que são diferentes da restante tribo e que conseguem ver.

Infelizmente é a partir daqui que See começa a perder interesse. Jerlamarel é o único que se recorda do mundo pré pandemia, provavelmente porque leu sobre ele nos livros guardados ao longo dos séculos, mas não utiliza essa informação de forma altruísta. See questiona o benefício da "evolução" e dá até mesmo a entender que foi o progresso o responsável pela destruição da humanidade. A segunda metade da temporada adopta um ritmo mais rápido através de um guião previsível e pouco original. Jerlamarel tem um plano, sim, mas desengane-se quem acha que o objetivo é construir um mundo melhor.

De salientar a performance de Sylvia Hoeks que dá vida à raínha, uma personagem inicialmente difícil de compreender mas que acaba por se tornar intrigante pelas suas ações e pela forma como reage às diferentes situações. Será interessante de acompanhar como dará seguimento ao seu plano na segunda temporada, após o reencontro com a irmã.