15 anos depois de Jobs, o novo líder da Apple também conta os parafusos
Faz hoje 15 anos que morreu Steve Jobs. O que ficou dele não está só nos produtos, mas numa maneira de trabalhar feita de pormenores que quase ninguém vê.
A 24 de agosto de 2011, Steve Jobs enviou uma carta curta ao conselho de administração da Apple. "Sempre disse que, se algum dia chegasse o momento em que já não conseguisse cumprir os meus deveres e as expectativas enquanto CEO da Apple, seria o primeiro a dizê-lo", escreveu. "Infelizmente, esse dia chegou." Morreu 42 dias depois, a 5 de outubro de 2011, faz hoje 15 anos. Na mesma carta deixou uma frase que soou a cortesia de despedida: "Acredito que os dias mais brilhantes e mais inovadores da Apple ainda estão por vir."
Este aniversário tem uma particularidade. A 1 de setembro, John Ternus, um engenheiro que entrou na Apple em 2001, ainda com Jobs ao comando, tornou-se CEO, e Tim Cook passou a presidente executivo do conselho de administração. É a primeira vez desde 2011 que a empresa de Cupertino muda de líder, e a escolha recaiu sobre alguém que passou a carreira a desenhar as coisas por dentro. É um bom pretexto para perguntar o que era, afinal, a forma de trabalhar de Jobs.

A resposta começa numa vedação. Walter Isaacson, o biógrafo autorizado, conta que Paul Jobs, o pai adotivo, ensinou ao filho que a parte de trás de uma vedação, a que ninguém vê, tem de ser tão bonita como a da frente, tal como um bom carpinteiro cuida da parte de trás de uma cómoda. Jobs levou a lição para o Macintosh. A 10 de fevereiro de 1982, juntou a equipa numa pequena festa, com bolo e champanhe, e pediu a cerca de 35 pessoas que assinassem uma folha. As assinaturas foram gravadas no molde da caixa e passaram a aparecer no interior de cada Mac. Jobs assinou em último lugar. Quase nenhum cliente as veria, e era precisamente esse o ponto: os artistas assinam a sua obra, mesmo quando ela fica escondida.
O gosto de Jobs vinha de sítios improváveis. Em Stanford, em 2005, contou que, depois de desistir do curso no Reed College, continuou a assistir às aulas que lhe interessavam, entre elas uma de caligrafia. Aprendeu o que distingue as letras com e sem serif e como o espaço entre caracteres muda tudo. Não via nisso utilidade nenhuma. Dez anos depois, ao desenhar o primeiro Macintosh, tudo voltou, e o Mac tornou-se o primeiro computador com tipografia bonita. Daí a frase que ficou desse discurso: "Não se pode ligar os pontos olhando para a frente. Só se pode ligá-los olhando para trás."
Os pontos mais duros ligaram-se depois de ter sido afastado da empresa que fundou, aos 30 anos. No mesmo discurso, disse que ser despedido da Apple foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido, porque o peso do sucesso deu lugar à leveza de voltar a ser principiante. Nos anos seguintes dedicou-se à NeXT e à Pixar, que fez "Toy Story", o primeiro filme de animação inteiramente feito por computador. Quando a Apple comprou a NeXT, Jobs voltou, e a tecnologia que lá tinha desenvolvido ficou, nas palavras dele, "no coração" do renascimento da Apple. Desse regresso ficou também um pormenor pouco lembrado: segundo os documentos que a Apple entregava ao regulador norte-americano, o seu salário era de um dólar por ano.
O regresso foi feito sobretudo de cortes. Na WWDC de 1997, perante programadores que tinham investido em tecnologias que ele acabara de cancelar, como o OpenDoc, explicou: "Focar é uma questão de dizer não." E acrescentou que dizer não irrita as pessoas. Ele próprio também ouviu nãos. No início dos anos 80, inspirado pelos uniformes das fábricas da Sony, pediu ao estilista Issey Miyake um colete para todos os funcionários da Apple e, como contou a Isaacson, foi vaiado. Ficou com um uniforme só para si: cerca de uma centena de camisolas pretas de gola alta feitas por Miyake. A justificação que dava era a conveniência do dia a dia.
A maneira de pensar também era física. Isaacson recorda que, em 2004, Jobs lhe telefonou e, convidado para falar no Instituto Aspen, disse que iria, mas não para subir ao palco. Preferia dar um passeio para conversarem. Só mais tarde o biógrafo percebeu que uma longa caminhada era a forma preferida de Jobs ter uma conversa séria, e que naquela queria pedir-lhe que escrevesse a sua biografia. Das mais de 40 entrevistas que acabaram por fazer, várias decorreram assim, a pé ou de carro.
Em janeiro de 2007, na apresentação do primeiro iPhone, Jobs citou o informático Alan Kay: "as pessoas que levam o software verdadeiramente a sério devem fazer o seu próprio hardware." É talvez a melhor síntese do que deixou. A Apple de Jobs nunca foi uma empresa de aplicações ou de serviços. Foi uma empresa convencida de que o objeto é o argumento e de que quem controla a peça controla a experiência. Até o espetáculo obedecia a essa lógica. O célebre "one more thing", a novidade guardada para o fim quando a apresentação parecia terminada, acompanhou-o até à sua última WWDC, em junho de 2011, quando o fecho ficou reservado ao iTunes Match.
Tim Cook, que chegou à Apple em 1998 e fez carreira nas operações, nunca tentou imitá-lo. Transformou essa convicção numa máquina: segundo a Apple, a capitalização bolsista passou de cerca de 350 mil milhões de dólares para 4 biliões durante o seu mandato, com o Apple Watch, os AirPods e os chips próprios do Mac pelo caminho.
E é aqui que Ternus volta a entrar na história. O primeiro projeto dele na Apple foi o Cinema Display. Em 2024, num discurso de formatura na Universidade da Pensilvânia, onde estudou Engenharia Mecânica, contou que deu por si, já depois da meia-noite, na fábrica de um fornecedor, a contar com uma lupa as ranhuras na cabeça dos parafusos que fechavam a parte de trás do monitor. Tinham 35. Deviam ter 25. Perguntou-se se aquilo era normal e concluiu que talvez não fosse, mas que era o certo. É a vedação de Paul Jobs, contada por outra geração.
Ternus chega numa altura em que, como resumiu o Washington Post no dia em que assumiu funções, crescem as dúvidas sobre a capacidade da Apple para competir na inteligência artificial, um terreno que não cabe numa caixa. O cuidado com os parafusos não chega para isso. O que Jobs deixou de mais difícil de herdar não foi o gosto pelo pormenor, foi a coragem de dizer não a coisas que funcionam, que dão lucro e que têm defensores poderosos lá dentro.
Se a carta de 2011 tinha razão, e os dias mais brilhantes ainda estão por vir, isso vai depender menos do que a Apple construir e mais do que tiver coragem de não construir. Jobs, que assinava por dentro aquilo que ninguém via, sabia que as decisões que contam raramente estão à vista.



