Desde que passei a acompanhar de perto o mundo da tecnologia e, mais especificamente, o mundo da Apple, uma coisa sempre esteve no topo da lista de desejos até mesmo dos usuários mais casuais do iPhone: definir aplicações de terceiros como aplicações padrão do sistema. Usar a agenda de contactos do Outlook ao invés dos Contactos do iOS, trocar o Safari pelo Chrome, adotar o Google Calendário ao invés do Calendário do iOS e assim por diante.

Pensando bem, este desejo existe desde que a Apple inaugurou a App Store, há mais de 10 anos. Assim que os usuários tiveram a possibilidade de usar serviços e apps alternativos aos da Apple no iPhone, era apenas natural a chegada do desejo de transformar essas apps nas opções prioritárias do sistema.

Com o passar dos anos, a cada WWDC e a cada atualização do iOS, a chama da esperança dessa possibilidade foi se extinguindo. Apenas os mais otimistas seguiam crédulos na possibilidade de um dia poder tocar no link de uma data recebida via iMessage, por exemplo, e ser levado direto à própria app de escolha de calendário ao invés do Calendário do iOS.

Por isso, foi com muita surpresa que, na última WWDC, a Apple anunciou uma abertura parcial desta possibilidade. Ou melhor, não anunciou. Ela apenas listou a possibilidade de substituir a app padrão de e-mail e de navegação junto de uma dúzia de outras novidades na famosa “nuvem de palavras” que ela costuma utilizar em apresentações para agrupar pequenas novidades que não mereceram tempo de destaque no palco (ou na transmissão, como foi o caso da última WWDC).

Mas por que deixar de lado algo tão esperado pelos usuários de iPhone? Está certo que esta possibilidade não mereceria mais destaque do que os widgets (com a sua decepcionante implementação limitada) ou a App Library do iOS 14, mas uma menção honrosa além da listagem na nuvem de palavras certamente teria sido mais do que adequada. Será que faltou tempo? Será que seria complicado de explicar rapidamente?

Não. Nada disso. O motivo pelo qual a Apple não dignificou esta excelente novidade pode ser resumido em um termo: anticompetitividade.

Há tempos, nos corredores do Congresso dos Estados Unidos, vem se formando uma tempestade contra as principais empresas de tecnologia. As principais empresas do mercado, sendo elas a Amazon, Apple, Facebook e a Google estão na mira tanto do Congresso e do Departamento de Justiça do país por conta de supostas (que, sejamos francos, não são tão supostas assim) práticas monopolistas nos mercados em que cada uma atua: a Amazon com o seu conflito de interesses da concorrência com os varejistas do próprio marketplace, a Google com o controlo sobre a prioridade que dá aos próprios serviços nos resultados de pesquisa frente à concorrência, o Facebook com o domínio multiplataforma que exerce na comunicação mundial com WhatsApp, Instagram, Messenger e o próprio Facebook, e a Apple com a App Store sendo a única forma de distribuir aplicações para um sem-número de iPhones e iPads por esse mundo fora.

Leitores que acompanham de perto o mercado de tecnologia provavelmente irão lembrar-se que, no ano passado, o Spotify iniciou uma campanha de ataque à Apple. Na ocasião, eles acusavam a Apple (e com razão) de práticas anticompetitivas por não permitir uma integração satisfatória entre a Siri e o Spotify. Mais do que isso, reclamavam (novamente, com razão) de ser impossível utilizar a plataforma no HomePod e, por fim, lembravam (sim, com razão) que estavam em desvantagem competitiva frente ao Apple Music, já que 15-30% do faturamento das assinaturas do Spotify feitas via App Store vão para o bolso da Apple.

Na época, a Apple prometeu que faria melhorias, e fez. A Siri passou a oferecer uma integração mais satisfatória e direta com o Spotify, e isso aliviou um pouco (mas apenas um pouco) a pressão sobre a Apple.

O que nos traz de volta à WWDC 2020. Enquanto a possibilidade de trocar o navegador e o calendário no iOS apareceu na nuvem de palavras, a possibilidade de integrar o Spotify ao HomePod sequer foi citada no evento. O que era para ser um anúncio extremamente satisfatório para os usuários e, claro, para o Spotify, virou notícia apenas quando a beta do sistema do HomePod foi lançada e mentes curiosas como as da equipa do 9to5mac resolveram revirar as entranhas do sistema para ver o que estava ali.

No fundo, a chegada desses recursos provou-se um desafio de relações públicas para a Apple: como anunciar mudanças mais amigáveis à concorrência de forma que não seja uma admissão de práticas anticompetitivas no passado? Ao dizer que o iOS e o HomePod estão mais abertos, existe aí uma admissão tácita de que eles eram fechados e, por isso, a Apple tem culpa por ter prejudicado e limitado a concorrência para benefício próprio na última década.

Este é um desafio que ela já está acostumada a enfrentar. Um exemplo recente disso foi o anúncio do Magic Keyboard para a linha atual de portáteis da empresa. Durante anos, a Apple fingiu-se de besta e não quis admitir que estava a lançar computadores com teclados revoltantemente frágeis. Ainda assim, ao anunciar o novo sistema de teclados, a empresa apenas citou a evolução sem mencionar a solução do problema que ela passou anos a negar que existia.

O mesmo se aplica às novidades do iOS e do HomePod, anunciadas dias após uma grande polémica envolvendo a empresa e a aplicação de e-mail Hey, por conta da tentativa da app de fugir do “Apple Tax” de 30% sobre assinaturas via App Store.

Bem atento a isto tudo está o Congresso americano, que segue de olhos e ouvidos bem abertos todas estas movimentações. Com a confirmação de que Tim Cook, junto de Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Sundar Pichai irão depor frente (ou remotamente) ao congresso americano, a única dúvida que resta é: será que a Apple resolveu se mexer tarde demais para aliviar as acusações de práticas anticompetitivas, ou será que isso será suficiente para reduzir a pressão sob o CEO Tim Cook, frente a questões mais urgentes e menos técnicas que serão exploradas com os outros três CEOs?

No dia 27 descobriremos.