Um recém nascido perde a vida de forma repentina. Como forma de lidar com a dor, os pais "substituem" o filho perdido por um boneco e contratam uma ama para cuidar do bebé (sim, do boneco-faz-de-conta-que-é-um-bebé). Já estás de olhos arregalados? O melhor ainda está para vir.

Nota: Este artigo contém spoilers!

Não gosto propriamente de contar demasiado, mas sinto que não há forma de escrever esta crítica sem levantar um bocadinho do véu. Servant é, segundo a Apple TV+, uma série de drama. É da autoria de Tony Basgallop e realizada pelo grande M. Night Shyamalan. Há muitas críticas que referem que Shyamalan apenas realizou dois episódios, mas a verdade é que na ficha técnica da Apple TV+, este é apontado como sendo o realizador e, paralelamente como sendo o produtor executivo do episódio um e do número nove - o que provavelmente originou a confusão sobre quem realizou o quê. M. Night Shyamalan é conhecido pelo seu trabalho com filmes como The Sixth Senses, Signs, e The Village e isso basta para nos deixar curiosos com Servant.

Voltando à história, Servant, ou a serva, em português, começa com a contratação de Leanne, como ama, para cuidar do boneco, como se este fosse um bebé real. Mal Dorothy abre a porta para receber Leanne, percebemos que há algo de muito estranho nesta jovem. Vestida de forma muito conservadora e com uma postura muito reservada e, aparentemente religiosa, a ama deixa imediatamente Sean desconfiado, principalmente porque esta trata o boneco como se fosse um bebé real, mesmo quando Dorothy não está. E como se tudo já não estivesse estranho o suficiente, o boneco ganha vida e, de repente, no berço passa a estar um bebé de carne e osso.

Dorothy, a mãe de luto, é uma personagem extremamente complexa: uma repórter de televisão em claro sofrimento com a morte do filho, mas que faz de tudo para manter as aparências. Vive numa espécie de transe e acredita mesmo que o boneco é o seu filho Jericho. Lauren Ambrose, no papel de Dorothy faz um trabalho extraordinário, oscilando entre diferentes estados de espírito, todos intensamente sentidos por Dorothy. A realização é, também, um aspecto a destacar. Afinal a série desenrola-se praticamente toda dentro da casa e só este facto poderia criar alguma monotonia. E acreditem, se há coisa que Servant não é, é uma série monótona. Cada episódio tem cerca de 30 minutos, algo geralmente associado a séries de comédia, mas que acaba por resultar na perfeição. Além disso, os planos de detalhe, tanto nos diálogos como no trabalho de Sean (ele é chef profissional e trabalha a partir de casa), conferem dinamismo à narrativa e acentuam, ainda mais, o mistério da história.

Servant não é a típica série de terror. É um drama psicológico envolto em suspense, do início ao fim dos 10 episódios da primeira temporada. O bebé morreu realmente? Como é que o bebé morreu? Quem é este bebé que surge no berço? Leanne é um espírito? Que culto é este a que pertence? A tua mente vai fervilhar de questões e sempre que algo é revelado, mais dúvidas vão surgir.

Há mais duas personagens que estão interpretadas de forma excepcional - Julian Pearce, o irmão de Dorothy e George, o tio de Leanne, que na minha opinião, é a melhor surpresa da trama.

Se gostas de desvendar mistérios, de drama familiar, suspense e de um pouco de fantasia e sobrenatural, vais delirar com Servant. Tem tanto de enervante como de intrigante, mas felizmente foi renovada para  uma segunda temporada.