Entre as novidades anunciadas na WWDC 2026, houve uma ausência que não passou despercebida: a Apple TV.
Enquanto o iOS/iPadOS 27, o macOS 27 Golden Gate, e, sobretudo, a nova Siri AI dominaram grande parte da apresentação da WWCD, o tvOS 27 recebeu apenas uma breve menção. Na prática, as novidades resumem-se a um novo design para a aplicação Podcasts, melhorias de desempenho, AirPlay mais rápido, Smart Downloads, uma nova opção de acessibilidade para aumentar o tamanho do texto e a apresentação da cobertura AppleCare diretamente nas Definições.
Nada revolucionário. Nada que altere significativamente a forma como utilizamos a plataforma.
Claro que não posso deixar de colocar a questão inevitável: estará a Apple TV a perder relevância? Se é que alguma vez a teve…
O problema não é a Apple TV. É o mercado.
Há uma década, a Apple TV tinha uma proposta clara. As televisões eram lentas, limitadas e raramente recebiam actualizações significativas. Para ter acesso a aplicações modernas, serviços de streaming ou integração com smartphones, era frequentemente necessário recorrer a uma box externa.
Em 2026, a realidade é completamente diferente. As atuais Smart TV da Samsung, LG, Sony, TCL, Hisense ou Philips possuem processadores poderosos, sistemas operativos completos e acesso direto às principais apps de entretenimento.
Netflix, Disney+, Prime Video, Max, Spotify, Apple Music, Apple TV+, YouTube, entre outras, estão disponíveis nativamente em praticamente qualquer televisão e/ ou box modernas.

Até as próprias operadoras começaram a abandonar o conceito tradicional de box. Em Portugal, a MEO promove atualmente a ideia de que “a TV do futuro já não precisa de box”, disponibilizando a experiência completa através de uma simples aplicação instalada na televisão.
A Vodafone segue uma estratégia oposta, mas na mesma linha. A aplicação Vodafone TV já está disponível para Apple TV, mas também para diversos equipamentos e plataformas, tornando cada vez menos necessária a presença de hardware dedicado.
A vantagem da Apple TV já não está no vídeo
Se olharmos apenas para o consumo de conteúdos, torna-se difícil justificar a compra de uma Apple TV quando praticamente todas as funcionalidades estão disponíveis nas televisões (e boxes) de hoje em dia.
O único argumento aqui a ter em conta é que Apple TV continua a desempenhar um papel relativamente importante dentro do ecossistema da empresa da maçã.
A integração com o HomeKit, a gestão da casa inteligente, o acesso às câmaras de segurança, o AirPlay, o FaceTime na televisão, o Fitness+ e a ligação aos HomePod continuam a oferecer uma experiência que poucas plataformas conseguem replicar.

O problema é que muitas dessas tarefas também podem ser realizadas através do iPhone ou do iPad, dispositivos que a maioria dos utilizadores Apple já possui.
Por outras palavras, a Apple TV deixou de ser essencial e passou a ser complementar.
Uma televisão Apple faz sentido?
Periodicamente surgem rumores (ou desejos) sobre uma eventual televisão produzida pela Apple. A ideia parece tentadora, mas enfrenta obstáculos evidentes.

O mercado das televisões caracteriza-se por margens reduzidas e forte concorrência entre fabricantes como Samsung, LG, TCL ou Hisense. É um setor muito diferente daquele em que a Apple habitualmente se movimenta.
Além disso, uma televisão concebida segundo a filosofia da empresa dificilmente seria barata. Um produto premium, com integração profunda no ecossistema Apple, materiais de elevada qualidade e tecnologias avançadas de imagem, teria um preço inacessível para a maioria dos consumidores.
Não é por acaso que, apesar dos rumores (e, como disse, desejos) ao longo de mais de uma década, a Apple nunca avançou com um televisor próprio.
A ironia dos ecrãs
Por outro lado, curiosamente, muitas das tecnologias de ecrã utilizadas pela Apple provêm de fabricantes que dominam o mercado das televisões. Ao longo dos anos, a Apple tem vindo sempre a recorrer a painéis fornecidos por gigantes como a Samsung Display, a LG Display, a Sharp, a Sony e outros parceiros especializados.
Muitos iPhone utilizam ecrãs OLED produzidos pela Samsung, vários iPad recorrem a tecnologia da LG e os micro-OLED do Apple Vision Pro são fornecidos pela Sony.

Ou seja, ao mesmo tempo que a Apple evita entrar diretamente no mercado das televisões, continua a depender fortemente de empresas que são líderes nesse setor.
Portanto, um pequeno slide e uma curtíssima nota de rodapé (só para dizer que existe) é aquilo a que a Apple reduziu a a sua box para as nossas televisões. Tinha potencial, mas o tempo a levará discretamente para o desaparecimento. Ou será não? É que a Apple consegue sempre desbravar caminhos misteriosos e por vezes sinuosos para o sucesso. Agora só John Ternus conhecerá o seu verdadeiro destino.