A decisão da Apple de adiar a chegada da nova Siri AI ao iPhone e iPad na União Europeia está a gerar uma crescente controvérsia entre a empresa da maçã e os reguladores europeus. Depois da Apple ter atribuído o atraso às exigências da Lei dos Mercados Digitais (DMA), a Comissão Europeia veio agora contestar publicamente essa interpretação.

Segundo a Apple, as regras europeias obrigariam a empresa a conceder a assistentes de inteligência artificial de terceiros o acesso a mensagens, fotografias, ficheiros, contexto pessoal e funcionalidades do sistema operativo, argumentando que tais exigências poderiam comprometer a privacidade e a segurança dos utilizadores. Como sabemos, a Apple tem feito da privacidade um dos seus principais argumentos de diferenciação face à concorrência.
No entanto, em declarações prestadas ao jornalista Connor Jewiss, a Comissão Europeia afirma que nada na DMA impede o lançamento da Siri AI na União Europeia. De acordo com Bruxelas, a Apple pode disponibilizar a nova assistente desde que cumpra os requisitos de interoperabilidade previstos na legislação.
EXCLUSIVE: Apple and the EU are telling very different stories on Siri AI, and right now, it's a standoff.
— Connor Jewiss (@jewiss) June 9, 2026
Apple's press release and comments to @LelloucheNico say the DMA would force it to give rival assistants deep access to messages, files, photos, app actions, and personal… pic.twitter.com/Q63kTTeiUb
A principal divergência parece centrar-se no conceito de "acesso equivalente". A Comissão Europeia sustenta que a Apple não pode utilizar o iOS para favorecer exclusivamente a sua própria inteligência artificial, devendo garantir que assistentes concorrentes possam aceder às mesmas capacidades do sistema em condições comparáveis.
Por seu lado, a Apple propôs um modelo denominado Trusted System Agent, concebido para permitir que apenas agentes de IA previamente aprovados possam interagir com funções sensíveis do sistema. A empresa terá igualmente apresentado um plano de implementação faseada ao longo de 18 meses.
Porém, segundo a Comissão Europeia, essa proposta não cumpria os requisitos de interoperabilidade previstos na DMA, razão pela qual acabou rejeitada.
Na prática, o que acontece é que este desacordo já ultrapassou as questões técnicas e transformou-se, sim, numa disputa sobre quem controlará a próxima geração de assistentes inteligentes no iPhone.

Enquanto a Apple defende um modelo mais fechado e controlado, assente na proteção da privacidade dos utilizadores, Bruxelas procura garantir que serviços concorrentes possam competir em igualdade de circunstâncias ao nível do sistema operativo.
Os reguladores europeus sublinham ainda que os utilizadores já podem instalar aplicações como ChatGPT, Claude, Gemini ou Perplexity. Ainda assim, a Comissão entende que a legislação exige mais do que simples liberdade de instalação: pretende assegurar que assistentes de terceiros possam aceder às funcionalidades do sistema de forma comparável à Siri AI.
Para já, os utilizadores europeus estão sem uma data para a chegada da nova Siri AI ao iPhone e ao iPad. O que é certo é que Apple e União Europeia parecem estar longe de alcançar um entendimento, deixando os consumidores europeus no centro de um braço-de-ferro regulatório que poderá definir o futuro da inteligência artificial nos dispositivos móveis.
Em boa verdade, ambas as posturas são defensivas. Afinal de contas, os iPhone já utilizam USB-C e ninguém pode dizer que isso tenha sido uma tragédia. Mas quando a regulamentação começa a tocar em aspectos que fazem parte do ADN tecnológico de uma empresa e dos segredos que sustentam a sua vantagem competitiva, parece-me que estamos a entrar num território bastante mais delicado.