A Apple TV tem vindo a afirmar-se como uma plataforma com enorme qualidade no panorama do streaming, apostando em produções originais ambiciosas e autorais. Pluribus, a mais recente série criada por Vince Gilligan, conhecido pelo seu trabalho em Breaking Bad e Better Call Saul, é talvez o exemplo mais ousado dessa estratégia.
A primeira temporada, lançada em novembro passado, apresenta uma narrativa provocadora, que mistura ficção científica, drama psicológico e humor negro, consolidando-se rapidamente como um dos títulos mais discutidos do catálogo da Apple.
A premissa de Pluribus é, à primeira vista, desconcertante. A série acompanha Carol Sturka, interpretada por Rhea Seehorn, descrita como “a pessoa mais infeliz do mundo”. Num universo onde a felicidade se tornou uma ameaça global, Carol é forçada a assumir um papel inesperado. Isto é, salvar a humanidade de um excesso de bem-estar. Esta inversão de valores serve de ponto de partida para uma reflexão profunda sobre identidade, livre-arbítrio e o preço da normalização emocional, temas recorrentes na obra de Gilligan, agora explorados num contexto mais especulativo.

Narrativamente, a primeira temporada destaca-se pela sua estrutura deliberadamente lenta, mas meticulosamente construída. Cada episódio acrescenta camadas à mitologia da série, evitando explicações fáceis e confiando na perspicácia do espectador. A escrita é precisa, com diálogos carregados de subtexto e situações que oscilam entre o absurdo e o inquietante. Esta abordagem pode não agradar a todos, mas é precisamente essa recusa em simplificar que torna Pluribus uma proposta tão singular dentro do catálogo da Apple TV.
A interpretação de Rhea Seehorn é um dos pilares da série. A actriz entrega uma performance contida, mas profundamente expressiva, transmitindo a complexidade emocional de Carol sem recorrer a exageros. A sua personagem é simultaneamente antipática e empática, uma contradição que espelha o próprio conceito da série. O elenco secundário, onde se destacam Karolina Wydra e Carlos-Manuel Vesga, complementa eficazmente a protagonista, contribuindo para um universo coerente e credível.
Do ponto de vista técnico, Pluribus mantém o elevado padrão de produção a que a Apple habituou o público. A realização aposta numa estética sóbria, com uma paleta cromática fria que reforça o tom existencial da narrativa. Por outro lado, a banda sonora é discreta, mas eficaz, sublinhando momentos-chave sem nunca se sobrepor à ação.
O impacto de Pluribus foi imediato. A série tornou-se o maior lançamento de sempre de um drama na Apple TV, liderando audiências em mais de 100 territórios e registando números de visualização recorde na plataforma. Segundo dados da Nielsen, Pluribus entrou no top 10 das séries originais mais vistas nos Estados Unidos em dezembro de 2025, acumulando cerca de 360 milhões de minutos visualizados numa única semana. Estes números são particularmente relevantes tendo em conta que se trata de uma série nova, sem temporadas anteriores para impulsionar o consumo.
A série liderou rankings de popularidade dentro do género drama e ficção científica, mantendo-se várias semanas no top da Apple TV. Estes indicadores refletem não só o interesse inicial, mas também a capacidade da série em manter o público envolvido ao longo da temporada.
Que venha a próxima season!
No que diz respeito ao futuro, a continuidade de Pluribus está assegurada. A Apple encomendou duas temporadas logo na fase inicial do projeto, o que confirma a confiança da plataforma na visão de Vince Gilligan. Embora ainda não exista uma data oficial de estreia para a segunda temporada, a expectativa é que os novos episódios cheguem ao Apple TV algures em 2027, tendo em conta os ciclos de produção habituais do criador e a complexidade da série.
Em suma, a primeira temporada de Pluribus afirma-se como uma das propostas mais arrojadas da Apple TV. Com uma narrativa desafiante, interpretações de alto nível e uma produção irrepreensível, a série demonstra que a Apple continua empenhada em apostar em conteúdos que privilegiam a qualidade e a originalidade. Os sólidos ratings e a recepção crítica favorável sustentam essa posição, deixando antever um futuro promissor para uma série que não tem medo de questionar o conceito de felicidade num mundo cada vez mais padronizado.