Siri AI: o cérebro do ecossistema pode vir a ter contador...

Siri AI: o cérebro do ecossistema pode vir a ter contador...

A nova Siri AI ainda nem chegou aos iPhones europeus e a Apple já nos começou a explicar o que acontecerá quando finalmente pudermos utilizá-la. Haverá limites. E quem quiser mais poderá pagar. Não é especulação nem informação descoberta por um leaker. Está escrito pela própria Apple nas letras pequenas da página da Apple Intelligence.

Como já explicámos no iFeed, a Siri AI não estará inicialmente disponível no iPhone, iPad e Apple Watch na União Europeia, graças ao braço-de-ferro entre a Apple e a Comissão Europeia em torno da Lei dos Mercados Digitais. A situação já levou inclusivamente utilizadores europeus a organizarem uma petição para pressionar Apple e instituições europeias a encontrarem uma solução.

Mas enquanto esperamos, vale a pena olhar para outro detalhe escrito nas letrinhas pequeninas das notas de rodapé.

“Podem aplicar-se limites de utilização”

A expressão surge repetidamente na página da nova Apple Intelligence: Siri AI, edição inteligente de fotografias, Image Playground e utilização dos modelos AFM 3 Cloud através dos Atalhos são algumas das funcionalidades que recorrem a modelos executados nos servidores da Apple e estarão sujeitas a limites diários.

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A existência de limites também não é totalmente nova. Já tínhamos referido no iFeed que algumas das capacidades mais avançadas da nova geração da Apple Intelligence poderiam ter utilização limitada.

Agora, porém, a Apple é bastante mais explícita: os limites poderão variar consoante a funcionalidade, a complexidade do pedido, a utilização do sistema, as políticas aplicadas e outros factores.

E se atingirmos o limite? Esperamos até que seja reposto. Ou então:

O acesso alargado a estas funcionalidades vai estar disponível mediante o pagamento de uma taxa no futuro.

Está escrito pela própria Apple. É só descerem nesta página até à nota de rodapé número 1.

Mais inteligência? Paga.

Ainda não sabemos exactamente como será feita essa cobrança. A Apple não anunciou uma subscrição chamada “Siri AI Pro”, nem disse que teremos necessariamente de pagar directamente por pedidos adicionais. A empresa da maça já indicou que alguns planos iCloud+ poderão incluir acesso superior a funcionalidades sujeitas a limites, pelo que a solução poderá passar pela integração destes níveis de utilização nas subscrições que já existem.

Mas a forma como será cobrado é secundária. O importante é que a Apple já confirmou oficialmente o princípio: há uma utilização limitada e haverá uma forma paga de obter mais acesso.

E os próprios Termos de Utilização da Apple Intelligence dão à empresa bastante margem para gerir esses limites. A Apple reserva-se o direito de decidir quais as funcionalidades sujeitas a restrições e de alterar esses limites ao longo do tempo. Quando forem atingidos, determinadas capacidades podem ficar temporariamente indisponíveis ou funcionar de forma limitada até o contador ser reposto.

É uma consequência relativamente previsível da chegada da inteligência artificial aos sistemas operativos.

Durante anos, comprávamos um iPhone ou um Mac e as capacidades do dispositivo estavam essencialmente incluídas no próprio produto. Com a IA, uma parte cada vez maior desse processamento deixa de acontecer no equipamento e passa para enormes centros de dados. E isso custa dinheiro.

A Apple começa agora a mostrar como pretende passar parte dessa conta para quem quiser utilizar mais. Como se já não bastasse pagar por um iPhone Pro aquilo que há pouco tempo era o preço de entrada de um Pro Max, poderemos ainda vir a ter de pagar mais por uma funcionalidade que faz parte do próprio ecossistema Apple.

E não estamos a falar de um serviço periférico. Estamos a falar da Siri AI, isto é, do cérebro que a Apple quer tornar omnipresente em praticamente todos os seus dispositivos compatíveis — e, caso o nosso já não seja compatível, claro, resta sempre comprar outro.

Durante anos, uma das grandes diferenças da Apple foi precisamente esta: hardware, software e serviços concebidos na mesma casa, com integração máxima e uma fluidez difícil de reproduzir fora do ecossistema.

iPhone, Mac, iPad, Apple Watch. Tudo comunica com tudo. A Apple até deu um nome a essa ideia: Continuidade.

Só que, a partir de agora, parece que para continuar a viagem exactamente como esperado poderá ser necessário pagar portagem. E tudo isto numa altura em que os preços do hardware continuam a subir para níveis cada vez mais difíceis de justificar.

Um iPhone Duo, por exemplo, pode custar mais do que um MacBook Pro de 14 polegadas equipado com um M5 (CPU 10-core, GPU 10-core, Neural Engine 16-core, 16GB RAM, 1TB SSD), cujo preço começa nos €2.249.

É uma comparação quase absurda. Um computador profissional completo pode custar menos do que um telefone. E mesmo depois de comprarmos o telefone mais caro, poderemos ainda descobrir que uma das funcionalidades mais importantes da nova geração da Apple tem contador. E portagem!

Há ainda uma última questão, talvez a mais simples de todas. Eu já pago pelo meu inseparável ChatGPT. E, por isso, não estou propriamente na disposição de acrescentar mais uma subscrição para ter acesso alargado à Siri AI, mesmo que esta venha a revelar-se tão boa — ou até melhor.

Outros utilizadores dirão exactamente o mesmo em relação ao Gemini, Claude, Copilot ou qualquer outra inteligência artificial a que já estejam habituados e pela qual já paguem.

A Apple entra, portanto, num mercado onde muitos dos seus clientes já têm uma relação estabelecida, hábitos criados e uma factura mensal associada. Convencê-los a pagar novamente não será tão simples como colocar um botão novo no iPhone.

Mas há boas notícias. O Cancelamento de Ruído já chegou à quinta iteração dos AirPods! Prioridades...

Resta esperar que o John Ternus se afaste um pouco deste caminho de preços cada vez mais altos, equipamentos cada vez mais segmentados e funcionalidades apresentadas como parte do futuro da plataforma para depois surgirem acompanhadas de limites e eventuais portagens.

Gostava de acreditar nisso. Mas algo me diz que não vamos teremos essa sorte.