A RAM ficou mais cara. E a Apple decidiu que pagamos nós
A Apple acaba de lançar o iPhone 18 Pro em Portugal por €1.499 e o iPhone 18 Pro Max por €1.649. São mais €150 do que custavam os modelos equivalentes no ano passado. A explicação parece simples: a memória está muito mais cara. E está mesmo.
A explosão da Inteligência Artificial fez disparar a procura de memória para os gigantescos centros de dados que estão a ser construídos por todo o mundo. Os fabricantes passaram a dedicar uma parte cada vez maior da sua produção a esse mercado, a oferta para computadores e smartphones ficou mais apertada e os preços da RAM aumentaram brutalmente.
Portanto, não vale a pena fingir que a Apple inventou o problema. Não inventou. A questão é outra: uma empresa como a Apple precisa mesmo de fazer o cliente pagar a factura inteira?

No último ano fiscal, a Apple facturou cerca de 416 mil milhões de dólares e teve aproximadamente 112 mil milhões de dólares de lucro líquido. E 2026 continua a correr-lhe bastante bem. Só nos primeiros nove meses do actual exercício, a empresa já ganhou mais de 101 mil milhões de dólares.
Só num dos últimos trimestres lucrou quase 30 mil milhões de dólares. Isto significa qualquer coisa como mais de 300 milhões de dólares de lucro por dia. Não de vendas. De lucro. É por isso que a conversa de que a subida do preço da RAM torna inevitável aumentar o preço do iPhone merece algum cuidado.
Evidentemente que, se um componente custa mais, fabricar um telefone também fica mais caro. Mas uma empresa pode reagir a isso de várias formas. Pode reduzir ligeiramente a margem que ganha em cada aparelho. Pode absorver uma parte do aumento. Pode compensar noutras áreas. Ou pode fazer aquilo que parece mais simples: passar o custo para o cliente.
A Apple escolheu a última opção. E tem todo o direito de o fazer. O problema está em apresentar esse aumento quase como se não existisse alternativa. Mas existe.
A Apple poderia ganhar um pouco menos...
Ninguém está a sugerir que a Apple passe a vender iPhones com prejuízo. Nem faria sentido. Mas há uma enorme diferença entre perder dinheiro e ganhar um pouco menos.
A Apple trabalha com margens que a esmagadora maioria das empresas só pode sonhar em ter. Mesmo no negócio dos produtos físicos, onde estão os iPhones, Macs e iPads, continua a ganhar dezenas de milhares de milhões de dólares.
Por isso, se a memória de um iPhone custa agora mais algumas dezenas de dólares, a Apple poderia perfeitamente absorver uma parte desse valor.
O resultado seria muito simples: continuaria a ganhar fortunas. Apenas ganharia um pouco menos em cada telefone. Preferiu aumentar o preço em Portugal em €150. E é precisamente essa escolha que deve ser discutida.

Quando os componentes ficam mais baratos, o iPhone também fica?
Há ainda uma pergunta bastante simples que ajuda a perceber o problema. Ao longo dos anos, os preços de muitos componentes electrónicos também desceram.
A memória já foi mais barata. Os processos de fabrico melhoraram. A produção em massa reduziu custos. A própria dimensão da Apple permite-lhe negociar condições com fornecedores que praticamente nenhuma outra empresa consegue obter.
Quantas vezes vimos o preço de um iPhone cair €100 ou €150 porque a Apple conseguiu comprar determinado componente mais barato? Raramente.
Quando os custos descem, essa diferença ajuda a aumentar a margem da empresa. Quando os custos sobem, aparentemente a diferença passa rapidamente para o consumidor. Conveniente.
O caso da RAM nos Mac é ainda mais curioso. Durante anos, a Apple cobrou centenas de euros por aumentos de memória que custavam uma fracção desse valor à empresa. Enquanto a RAM era relativamente barata, essas actualizações eram uma extraordinária fonte de margem.
Agora que a memória ficou mais cara, parece que a conta também pertence ao cliente. A Apple ganha dos dois lados.
A RAM explica. Não obriga.
É importante separar duas coisas. A subida do preço da memória explica por que motivo os iPhones ficaram mais caros de produzir. Mas não significa que a Apple fosse obrigada a aumentar o preço do iPhone em €150. Essa foi uma decisão.

Para fabricantes que trabalham com margens muito pequenas, a subida brutal da RAM pode realmente obrigar a aumentar preços. Caso contrário, arriscam-se a vender os produtos quase sem lucro ou até com prejuízo.
A Apple não está nessa situação. Estamos a falar de uma empresa que ganha mais de cem mil milhões de dólares por ano.
Uma empresa desta dimensão poderia perfeitamente dizer: os nossos custos aumentaram, vamos aceitar ganhar um pouco menos durante algum tempo para manter os preços dos nossos produtos. Não o fez.
Em Portugal, o resultado está à vista:
- iPhone 18 Pro: €1.499;
- iPhone 18 Pro Max: €1.649.
Mais €150 do que há um ano.
A RAM ficou muito mais cara. Isso é verdade. Mas talvez a explicação mais simples para o aumento dos preços seja também a mais óbvia: a Apple pode pagar uma parte dessa conta. Prefere que a paguemos nós.



