No dia 11 de março, a Apple surpreendeu o mundo com o lançamento do MacBook Neo, um novo portátil que, segundo a própria marca, pretende levar “a magia do Mac a um preço nunca antes visto”.
Com um design em alumínio, um ecrã Liquid Retina de 13 polegadas, autonomia para um dia inteiro e, sobretudo, um preço de entrada significativamente mais baixo do que aquilo a que a Apple nos habituou, o MacBook Neo apresenta-se como o computador portátil mais acessível de sempre da marca.

Mas houve um detalhe que saltou imediatamente à vista: este não é um Mac com processador da série M. Em vez disso, a Apple optou por integrar o A18 Pro — o mesmo chip que dá vida ao iPhone 16 Pro. Ou seja, estamos perante um portátil com o processador de um smartphone!
Esta ideia de lançar um computador portátil com um chip da família A pode parecer, à primeira vista, arrojada, algo louca ou, por outro lado, até oportunista. Mas talvez não seja assim tanto.
O computador que guiou a missão Apollo 11 Moon Landing em 1969, o Apollo Guidance Computer (AGC), tinha um processador de 16 bits a 1 MHz e apenas 2 KB de RAM. Uma fração ínfima do que hoje encontramos em qualquer iPhone.
Se isso foi suficiente para levar o homem à Lua, então um chip moderno da Apple terá não terá qualquer dificuldade em lidar com as nossas tarefas do dia-a-dia — ou até mais do que isso.
Então vejamos: basta pegar numa geração anterior, colocá-la num chassis de um laptop, e criar um produto mais acessível? Bom, e de caminho, ainda se pode dizer que a reciclagem está na moda!
Por outro lado, há pouco tempo, comprei o iPad 11. O modelo mais básico possível. Nem Air, nem Mini, muito menos Pro. Apenas o iPad “normal”, na sua configuração base. Decidi dar-lhe uma nova oportunidade, depois de uma primeira experiência, aquando do seu lançamento, em que, na altura, não me disse grande coisa.
Hoje, a história é diferente. Estou bastante satisfeito com o iPad, sobretudo porque me permitiu deixar o iPhone mais vezes de lado e passar a fazer praticamente tudo num ecrã maior — tanto em casa como na rua, recorrendo ao iPhone em modo de hotspot pessoal. Com o Apple Pencil, mesmo não sendo o modelo Pro, a experiência tornou-se ainda mais interessante.
Quando comecei a procurar uma capa para o iPad, não consegui ignorar o Magic Keyboard Folio. A ideia de transformar o iPad num dispositivo com formato de portátil, mas mantendo a possibilidade de o usar como tablet ou bloco de notas digital, é extremamente apelativa.

Com o lançamento do MacBook Neo surgiu uma questão inevitável: será que faz sentido comprar um iPad e um teclado separado, quando um MacBook Neo, na sua versão base, pode ficar mais barato — e já inclui teclado, trackpad e – principalmente – o macOS?
Mais interessante ainda é perceber que, no fundo, estamos a comparar dois dispositivos que partem de processadores de iPhone: um baseado numa versão reduzida do A16 do iPhone 14 Pro e outro numa versão quase completa do A18 Pro do iPhone 16 Pro.
Vejamos os comparativos
Antes de comparar preços, teclados, ecrãs ou sistemas operativos, convém começar pelo coração dos dispositivos: o processador.
1. O que há dentro de cada um?
| Dispositivo | Ano do produto | Processador | CPU | GPU | Neural Engine | RAM |
|---|---|---|---|---|---|---|
| iPhone 14 Pro Max | 2022 | A16 Bionic | 6-core | 5-core | 16-core | 6 GB |
| iPad 11" (A16) | 2025 | A16 Bionic | 5-core | 4-core | 16-core | 6 GB |
| iPhone 16 Pro Max | 2024 | A18 Pro | 6-core | 6-core | 16-core | 8 GB |
| MacBook Neo | 2026 | A18 Pro | 6-core | 5-core | 16-core | 8 GB |
O primeiro dado curioso é este: o iPad 11" de 2025 usa um A16, mas não exactamente com a mesma configuração do A16 Bionic do iPhone 14 Pro Max. O iPhone 14 Pro Max tinha CPU de 6 núcleos, GPU de 5 núcleos e Neural Engine de 16 núcleos. Já o iPad 11" (A16) surge com CPU de 5 núcleos, GPU de 4 núcleos e Neural Engine de 16 núcleos.
Do outro lado, o MacBook Neo usa o A18 Pro, o mesmo chip-base da geração iPhone 16 Pro, mas com uma diferença relevante: no iPhone 16 Pro Max, a Apple indica GPU de 6 núcleos; no MacBook Neo, a GPU fica pelos 5 núcleos. A CPU, essa, mantém os 6 núcleos, com 2 núcleos de desempenho e 4 de eficiência.
Ou seja, não estamos apenas perante “um iPad contra um MacBook”. Estamos perante um iPad de entrada com uma versão reduzida de um chip de 2022 e um MacBook de entrada com uma versão ligeiramente reduzida de um chip Pro de 2024.
2. Ecrã
| Característica | iPad 11" (A16) | MacBook Neo |
|---|---|---|
| Tipo | Liquid Retina | Liquid Retina |
| Tamanho | 10,86" | 13,0" |
| Resolução | 2360 × 1640 | 2408 × 1506 |
| Densidade | 264 ppp | 219 ppp |
| Luminosidade | 500 nits | 500 nits |
| Touch | Sim | Não |
| Apple Pencil | Sim | Não |
Aqui o iPad tem uma vantagem óbvia: é táctil e compatível com Apple Pencil. Além disso, tem maior densidade de píxeis. O MacBook Neo, por outro lado, tem um ecrã maior, mais adequado a uma utilização clássica de computador portátil, sobretudo para escrita, navegação com várias janelas e trabalho prolongado.
3. Portas, expansão e monitores externos
| Característica | iPad 11" (A16) | MacBook Neo |
|---|---|---|
| USB-C | USB 2.0 até 480 Mb/s | 1× USB 3 até 10 Gb/s + 1× USB 2 |
| Monitor externo | Até 4K a 60 Hz | Até 4K a 60 Hz |
| Jack 3,5 mm | Não | Sim |
| Wi-Fi | Wi-Fi 6 | Wi-Fi 6E |
| Bluetooth | 5.3 | 6 |
Ambos suportam monitor externo até 4K a 60 Hz, mas não da mesma forma. O iPad fá-lo através de uma porta USB-C limitada a USB 2.0. O MacBook Neo tem uma porta USB 3 até 10 Gb/s, uma segunda porta USB-C e saída para auscultadores de 3,5 mm.
4. Bateria e portabilidade
| Característica | iPad 11" (A16) | MacBook Neo |
|---|---|---|
| Autonomia | Até 10 h em Wi-Fi ou vídeo | Até 16 h streaming / 11 h internet wireless |
| Peso do dispositivo | 477 g | 1,23 kg |
| Peso com teclado | Apple não indica o peso do Magic Keyboard Folio | 1,23 kg |
| Carregamento | USB-C | USB-C |
O iPad sozinho é muito mais leve. Mas, para esta comparação, o iPad sozinho não chega: se queremos compará-lo com um portátil, temos de lhe acrescentar o Magic Keyboard Folio. E aqui há um problema: a Apple indica o peso do iPad, mas não indica o peso do Magic Keyboard Folio na página do acessório.
5. Teclado e trackpad
| Característica | iPad + Magic Keyboard Folio | MacBook Neo |
|---|---|---|
| Teclado | Acessório externo | Integrado |
| Trackpad | Sim | Sim |
| Teclas de função | 14 teclas | 12 teclas de função |
| Touch ID | No iPad, através do botão superior | Disponível na versão com Touch ID |
| Utilização modular | Sim | Não |
O Magic Keyboard Folio transforma o iPad num equipamento muito mais próximo de um portátil: tem teclado com mecanismo em tesoura, trackpad, 14 teclas de função, suporte ajustável e design destacável. Mas continua a ser um acessório comprado à parte.
No MacBook Neo, teclado e trackpad fazem parte do produto. A experiência de portátil está lá desde o primeiro momento.
6. Sistema operativo
| Dispositivo | Sistema operativo |
|---|---|
| iPad 11" (A16) | iPadOS |
| MacBook Neo | macOS |
Este é provavelmente o ponto mais importante de toda a comparação. O iPad pode aproximar-se fisicamente de um portátil quando lhe juntamos o Magic Keyboard Folio, mas continua a correr iPadOS. O MacBook Neo, apesar de usar um processador da família A, corre macOS.
7. Preço
| Produto | Preço |
|---|---|
| iPad 11" (A16), 128 GB | 449 € |
| Magic Keyboard Folio | 299 € |
| Total iPad + teclado | 748 € |
| Produto | Preço |
|---|---|
| MacBook Neo, 256 GB | 699 € |
| MacBook Neo, 512 GB | 799 € |
E é aqui que a comparação fica especialmente interessante. Para transformar o iPad 11" A16 num dispositivo comparável, pelo menos no formato, a um portátil, é preciso comprar o Magic Keyboard Folio. Só esse acessório custa 299 €.
Assim, a configuração iPad + teclado fica nos 748 €, enquanto o MacBook Neo começa nos 699 €, já com teclado, trackpad, macOS, 8 GB de memória unificada e 256 GB de armazenamento SSD.
Conclusão
No fim de contas, esta comparação não é tão simples como escolher entre iPad ou MacBook Neo. É, acima de tudo, uma questão de contexto.

Para quem já vive dentro do ecossistema Apple — com um iMac, um MacBook Air ou Pro — o MacBook Neo levanta uma dúvida legítima: para quê? Nesse caso, o iPad faz mais sentido como complemento. Permite largar o iPhone, ganhar um ecrã maior, consumir conteúdos, ler, escrever, desenhar ou simplesmente estar numa praia com um dispositivo leve, silencioso e táctil. E quando entramos no território dos iPad Pro com processadores M, essa lógica torna-se ainda mais evidente.
Além disso, o iPadOS, pela sua proximidade ao iOS, continua a oferecer um tipo de experiência que o macOS não consegue oferecer: o acesso a apps e a formatos de utilização mais “móveis”, mais diretos e mais descontraídos.

Por outro lado, para quem não tem um portátil, ou que tem um PC e sempre quis um Mac, mas o preço era assustador, o MacBook Neo mudou completamente o jogo. Pela primeira vez, há um Mac que entra nesse território de preço com argumentos sólidos: desempenho e autonomia elevados, macOS completo e uma experiência de portátil sem compromissos. Aqui, a escolha torna-se quase óbvia.
Há ainda um terceiro cenário: o de quem já tem tudo. Um Mac para trabalhar, um iPhone no bolso e um Apple Watch no pulso… e ainda assim encontra no iPad um espaço próprio. Um dispositivo intermédio, mais leve, mais imediato, que permite tratar de emails, fazer pequenas tarefas ou simplesmente desligar do ambiente de trabalho mesmo que, objetivamente, essas tarefas fossem mais rápidas e eficientes num portátil.

No fundo, o MacBook Neo vem simplificar uma decisão: se precisas de um computador, compra um computador. O iPad continua a justificar-se, desde que não tentes que ele seja um.
Sinto-me ainda, e obviamente, tentado a usar a piada fácil: e tu? "Do you want the red pill or the blue pill?"