A Apple acaba de fazer um dos anúncios mais significativas da sua história recente. Tim Cook, que liderou a empresa durante mais de uma década após a morte de Steve Jobs, anunciou que cede o lugar de CEO a John Ternus – até agora vice-presidente sénior de engenharia de hardware. A passagem de testemunho está marcada para 1 de setembro de 2026.

A notícia apanhou o sector tecnológico de surpresa, não tanto pela escolha do sucessor, que já era amplamente esperada, mas pela forma e o momento em que foi feita: numa noite de segunda-feira, poucos dias após as comemorações do 50.º aniversário da Apple, sem qualquer sinal prévio de que estaria iminente.
O legado de Tim Cook
Para compreender o que muda com esta transição de poder, é essencial perceber o que Tim Cook construiu ao longo dos seus anos no cargo. Há que dar parabéns a Tim Cook, antes de tudo. A sua gestão ficou marcada por uma capacidade extraordinária de extrair valor de cada produto, cada mercado e cada relação comercial. Cook transformou a Apple numa máquina de gerar receitas através de serviços – a App Store, as subscrições, os pagamentos – num momento em que o crescimento das vendas de iPhone começava a abrandar. A empresa deixou de ser apenas fabricante de hardware para se tornar, em parte, uma empresa de serviços de software, com margens mais elevadas e receita recorrente.

Contudo, a excelência na gestão da cadeia de fornecimento é talvez o aspecto mais impressionante do seu mandato. Nenhuma outra empresa no mundo é capaz de fabricar um produto tão complexo como o iPhone, em dezenas de milhões de unidades, com a regularidade e a precisão com que a Apple o faz todos os anos. Este feito é, por si só, uma das realizações mais notáveis da história empresarial moderna.
No entanto, o legado de Cook não é isento de críticas. A obsessão com a escala e com o lançamento apenas de produtos garantidamente bem-sucedidos terá sufocado a inovação. A Apple da era Cook multiplicou versões de cada produto e, como saberás, há hoje dezenas de configurações de iPad, de AirPods, de iPhone, mas apostou em relativamente poucos conceitos verdadeiramente novos.
Ou seja, o Apple Watch – que é um excelente produto –, passou de promessa tecnológica a utensílio para a saúde, o Vision Pro é um pedaço de tecnologia de outro mundo, mas não teve aderência no mercado e, por último, vale não esquecer que o HomePod foi praticamente abandonado depois de não atingir os números esperados, mesmo sendo um produto que os seus utilizadores adoram.
A transição de poder
Tim Cook não desaparece da Apple. Mantém-se como Presidente Executivo. É uma transição clássica em Silicon Valley, dado que o CEO histórico sobe na hierarquia formal para gerir os assuntos geopolíticos e proteger a empresa dos ventos políticos, enquanto um líder mais jovem assume o controlo operacional e criativo. No contexto atual, esta divisão de funções faz todo o sentido. A Apple tem interesses estratégicos na China e enfrenta pressões crescentes da administração Trump – tarifas, discursos políticos, exigências diplomáticas informais. Cook é o rosto que Donald Trump conhece, o interlocutor com quem o presidente está habituado a lidar. Introduzir agora um "novo personagem" nessas relações seria, no mínimo, arriscado.
John Ternus, o homem do hardware
John Ternus é, acima de tudo, o homem do hardware. Está na Apple há 25 anos, ascendeu ao cargo de SVP de engenharia de hardware há 13 anos e está na equipa executiva há apenas 5 – a função que agora passa para Johny Srouji, que recebe o novo título de Chief Hardware Officer, um sinal claro de que a Apple está a valorizar a engenharia do Apple Silicon e de produto numa escala raramente vista.

Ternus não é um outsider nem uma figura de rotura. É, antes, alguém que conhece a Apple tão profundamente quanto qualquer outro executivo. É alguém apaixonado pelos produtos ao ponto de discutir acaloradamente os detalhes técnicos. Essa proximidade com o hardware é precisamente o que muitos observadores esperam que traga uma mudança cultural subtil, mas significativa: a possibilidade da Apple voltar a tentar mais coisas, a lançar produtos que são degraus para produtos maiores, em vez de insistir que cada lançamento tem de ser o produto definitivo da sua categoria.
O que esperar da era Ternus
A questão que mais mobiliza a comunidade tecnológica é simples: vai a Apple arriscar mais? A era Cook foi definida pela pressão para que cada produto atingisse escala de mercado global. Esta exigência tornou cada falha mais cara e cada lançamento mais conservador. Os críticos argumentam que foi esta lógica que deixou a Apple apanhada de surpresa pela explosão da inteligência artificial generativa. Isto é, a empresa demorou a responder ao entusiasmo em torno dos modelos de linguagem, lançou a Apple Intelligence de forma atribulada, e ficou refém de uma promessa de Siri renovada que ainda não cumpriu.

Com Ternus no leme, a esperança é que a Apple comece a experimentar mais, mas com uma abordagem mais próxima da Apple nos anos de Jobs – lançar produtos (im)perfeitos que abrem caminho para produtos extraordinários. O HomePod podia ter tido um ecrã anos antes. Podia ter havido um dispositivo doméstico inteligente muito antes do que há. A questão não é abandonar a filosofia da excelência, mas aceitar que às vezes é preciso construir o caminho antes de chegar ao destino.
Assim, a saída de Tim Cook da linha da frente marca o fim de uma era de consolidação e eficiência máxima. O que começa agora com John Ternus é, potencialmente, uma era de recentragem no produto, na engenharia e na inovação de hardware. Num momento em que a indústria tecnológica procura, sem encontrar ainda, o próximo grande paradigma de interacção com as máquinas. A Apple não vai mudar de identidade. Mas pode, finalmente, voltar a sonhar em voz alta.