Para me preparar para escrever esta crónica, reassisti à apresentação de 4 de outubro de 2011 (véspera da morte de Steve Jobs), em que Scott Forstall demonstrou a principal novidade do iPhone 4s: Siri.

Antes da demonstração, Phil Schiller deixou claro que o que se veria a seguir era com base na versão beta de um recurso e, por isso, não havia nenhuma garantia de que daria totalmente certo. Mas a apresentação foi um sucesso. Scott Forstall tomou o palco e mostrou as infinitas possibilidades de interações com a assistente virtual: perguntar a previsão do tempo, converter fusos horários, ligar o alarme, verificar ações, pedir recomendações de restaurantes, pedir direções, criar lembretes, etc...

A cada resposta, quase sempre espirituosa, a plateia aplaudia em meio a risadas e um ar de surpresa. De facto, guardadas as devidas proporções, a Siri era um pequeno replay da apresentação do iPhone em 2007: uma tecnologia que ainda parecia alguns anos distante, chegando mais cedo para os utilizadores da Maçã.

Num dos exemplos, Scott Forstall recebeu uma mensagem de Phil Schiller a perguntar sobre o almoço. Forstall pediu para a Siri verificar o calendário e, em seguida, ditou a resposta para enviar a Schiller. Ali, Forstall demonstrou que a Siri era capaz de seguir o contexto de uma conversa, o que lembro de ter sido a parte que mais me surpreendeu naquele evento.

Quem já acompanhava as movimentações de bastidores da Apple não foi apanhado totalmente de surpresa com o anúncio da Siri. Nem toda a gente sabe, mas o próprio nome Siri não foi uma invenção da Apple. A Apple comprou a Siri em 2010, à época uma pequena aplicação para iPhone e iPod Touch com basicamente as mesmas capacidades que foram apresentadas no ano seguinte: envio de mensagens, consulta de direções, parcerias com empresas como a OpenTable e a Citysearch para puxar dados de lugares com restaurantes ou estabelecimentos comerciais, etc.

Ainda assim, a apresentação foi impressionante e deixou mais uma vez todo o mercado com a sensação de que o iPhone era um pequeno portal de acesso a um futuro tecnológico que ainda levaria uns anos para chegar à concorrência.

E, de facto, levou alguns anos. A Alexa da Amazon e a Cortana da Microsoft foram anunciadas em 2014, a Google Assistente foi anunciada em 2016 (!!!), e a Bixby da Samsung veio em 2017.

Neste meio tempo, a Siri… bem, a Siri continuou praticamente igual. A esta altura, ela já era motivo de piada em talk shows, séries e filmes de TV pela sua ineficiência e dificuldade em cumprir os pedidos mais simples. É bem verdade que ela possuía todas as capacidades anunciadas em 2011, mas reassistindo ao evento fica claro como toda a maquilhagem e a pompa do anúncio fizeram parecer que a tecnologia era muito mais avançada e disruptiva do que ela realmente era.

E enquanto a Siri seguia evoluindo a passos de tartaruga, com uma lenta expansão de idiomas (onde está o suporte ao Português de Portugal, pelamordeJobs?) e de recursos que se arrasta até aos dias de hoje, a concorrência evoluiu de forma exponencial. A Amazon inaugurou a categoria de colunas inteligentes com o Echo, a Google Assistente tornou-se a transposição vocal do poderosíssimo motor de busca da empresa, e ambas optaram por oferecer aos desenvolvedores uma gama de possibilidades de integrações, complementos e funções que nós, do ecossistema da Apple seguimos a olhar de fora e a pensar “poxa, não sabia que dava para fazer isso”.

Pode-se argumentar que muito disso seja fruto da preocupação da Apple com privacidade. Sem coletar dados, sem abrir os dados do utilizador a terceiros e sem permitir a integração de dados externos à assistente, as possibilidades de interação com a Siri ficam naturalmente mais limitadas. Mas mesmo assim, chega a ser revoltante ver a apresentação de há quase 10 anos atrás e perceber que a Siri continua basicamente a mesma. Até mesmo dentro do ecossistema da Apple, a assistente está muitíssimo aquém de onde poderia estar caso a Apple tivesse mantido o foco e o interesse pela Siri.

Histórias de bastidores contam que existiu um certo atrito interno na Apple em relação à proposta e às funcionalidades da Siri. Enquanto uma parte da equipa defendia uma utilidade mais abrangente, uma espécie de Siri OS, outra parte defendeu um desenvolvimento mais rápido e mais básico, mantendo a Siri apenas como um recurso do telefone, para acelerar o lançamento da assistente à frente da concorrência. Esta segunda equipa saiu vitoriosa, e até hoje a Siri sofre por causa disso.

E sabes qual é a pior parte dessa história? Parece que a Apple já se relegou ao facto de que a Siri seguirá sendo mantida como um recurso complementar e, de certa forma, dispensável dos seus sistemas. Se no início a Siri recebia atenção em eventos e em keynotes, ela não tem passado de uma nota de rodapé nas últimas edições da WWDC.

Fico a pensar, por exemplo, como teria sido incrível se a Siri tivesse sido integrada ao Workflow, comprado pela Apple em 2017. Imagina pedir à Siri “mostra-me um alerta sempre que chover no dia seguinte”, ou então “Cria uma ação que traduza para o português todas as notificações que eu receber em inglês e em seguida lê em voz alta”. Isso tudo já poderia funcionar de forma nativa e segura, dentro do ecossistema da Apple, sem depender de complementos ou partilha de informações com desenvolvedores terceiros, que aparentemente ainda é algo que a Apple segue temendo de uma forma que já prejudica o desempenho dos seus produtos.

E repara que nem sequer estou a comentar sobre a Siri no HomePod, na Apple TV, ou no Apple Watch, que oferecem diferentes limites, recursos e possibilidades apesar de, teoricamente, serem a mesma assistente virtual.

Nos últimos anos, a cada WWDC, a minha maior esperança era que a Apple dissesse “sabes porque não vínhamos a anunciar nada sobre a Siri? É porque estávamos ocupados a reformular completamente a assistente virtual em preparação para o anúncio de hoje: uma Siri 2.0, reconstruída e adaptada para a realidade de 2020”. Hoje em dia? Bem, hoje em dia eu faço a maior parte das minhas perguntas para o Google Nest Hub que fica ao lado do HomePod na estante da sala de casa.