É Guerra! Facebook vs Apple

É Guerra! Facebook vs Apple

Marcus Mendes
∙ 4 minutos de leitura

Já fazia tempo que essa tensão vinha a borbulhar e efervescer no mercado de tecnologia, mas nos últimos dias tornou-se uma guerra franca entre a Apple e o Facebook. O motivo? Privacidade, é claro.

Não é de hoje que a Apple investe muito, muito dinheiro em comunicação (e atitudes, claro) para se posicionar como a marca que se preocupa com a privacidade dos clientes. Da campanha “O que acontece no seu iPhone, fica no seu iPhone” à precisa declaração de Steve Jobs sobre privacidade no evento AllThingsD, não faltam exemplos de situações em que a Apple trouxe à luz os seus princípios em relação à coleta e utilização dos nossos dados.

“Acredito que as pessoas são espertas, e algumas pessoas estão dispostas a partilhar mais dados que outras. Pergunte-lhes. Pergunte-lhes todas as vezes. Faça com que elas te peçam para parar de perguntar se ficarem cansados das perguntas. Faça com que eles saibam exatamente o que vai fazer com as informações delas”.

No evento de 2010, o Facebook já era o símbolo de falta de privacidade e da exploração desenfreada dos nossos dados. Aliás, pouco antes de Steve Jobs falar sobre privacidade, os anfitriões Walt Mossberg e Kara Swisher mencionam o facto de que Mark Zuckerberg está na plateia naquele exato momento, ao introduzirem o assunto de privacidade que gerou essa resposta de Jobs.

11 anos depois, cá estamos. Seria errado dizer que nada mudou, mas a situação ainda é bastante parecida. Acho que a análise mais certeira é que para ambos lados, a coisa se intensificou. De 2010 para cá, o Facebook acelerou a coleta e a exploração dos nossos dados (dando origem inclusive a escândalos como o da Cambridge Analytica e inúmeras fugas de informação e escândalos de privacidade que apenas escancararam as práticas nefastas da empresa), e do lado da Apple ela passou a restringir mais e mais o acesso às nossas informações, implementando recursos de segurança, de privacidade e, francamente, de bom-senso nos nossos dispositivos.

Bem, na última semana, a intensificação dessa queda de braço entre as duas empresas transformou-se numa guerra às claras, com acusações, frases de efeito e algumas verdades que finalmente foram ditas.

A origem disso, ou pelo menos do capítulo mais atual dessa briga, foi o anúncio das novas funções de privacidade do iOS. A primeira, uma espécie de relatório de transparência para cada app na App Store, indicando cada forma de coleta de cada dado. O Facebook, surpreendentemente, foi rápido para adotar as novas regras e as suas apps inevitavelmente viraram notícia pela quantidade absurda de dados que coletam. A Google, por sua vez, está a fugir dessas mudanças até hoje e interrompeu a atualização da maioria das suas apps para não ter de nos informar sobre a coleta de dados.

Bem, a segunda mudança, foco de toda a briga que está por vir, é mais profunda e infinitamente mais significativa: as aplicações serão obrigadas a pedirem a permissão do utilizador para rastreá-lo. O Facebook vem a lutar contra esta novidade desde o seu anúncio na WWDC do ano passado, e de certa forma conseguiu algumas vitórias. Um movimento liderado por ele fez a Apple anunciar um adiamento da implementação desse recurso, e na última semana ela anunciou que esse adiamento está perto do fim. A próxima beta do iOS, iPadOS e tvOS (que provavelmente serão lançados em breve) já implementará essa mudança, o que significa que dentro de mais ou menos um mês isso será lançado oficialmente para todos os clientes.

E qual é o impacto dessa mudança? É gigantesco. Se o utilizador rejeitar o pedido de rastreamento, não poderá ser identificado, não poderá ser acompanhado entre os sites e apps que visita e, por isso, deixará de receber publicidade direcionada. Uma outra forma de dizer isto é: o Facebook não poderá mais coletar as informações a respeito do utilizador para vender publicidade direcionada, e isso é um problema porque todo o modelo de negócios da empresa está baseado nessa possibilidade.

E foi por isso que nesta última semana, durante a divulgação dos resultados financeiros do último trimestre, o Facebook alertou os acionistas sobre “tempos incertos à frente”. Ele próprio já disse que sabe que muitos, senão a maioria, dos utilizadores optarão por bloquear o rastreamento. Ele já avisou os anunciantes que  perderão a possibilidade de fazer campanhas micro-direcionadas e, segundo o veículo The Information, ele está a preparar um processo para tentar convencer a justiça americana que o aumento da privacidade no iOS é, na verdade, uma manobra da Apple para limitar a concorrência.

Já a Apple, também em campanha de ataque, apresentou por meio do próprio Tim Cook, em um discurso na conferência da Computers, Privacy & Data Protection, os seus argumentos e motivações para intensificar a segurança dos nossos dados e a nossa privacidade. Ele também valeu-se do caos parcialmente proporcionado pelo Facebook em Washington para chamar a atenção para o facto do Facebook ser uma força ruim no mundo, e preparou o terreno para associar os malefícios da existência da rede à coleta desenfreada de dados que ela faz.

Olhando para toda esta situação, uma coisa fica muito clara. Pela primeira vez em muitos anos, o Facebook está numa posição desfavorável. Ele sabia do risco, é claro. Passou mais de uma década a burlar os sistemas de segurança do Android e do iOS para benefício próprio, deu aulas do que não deve ser feito do ponto de vista de relações públicas a cada nova polémica de privacidade, e seguiu construindo um modelo de negócio em que 99% do faturamento da empresa depende das possibilidades de exploração de dados em sistemas que ele não controla.

É impossível não perceber que todas as mudanças de segurança e de privacidade no iOS são resultado exatamente desse comportamento sujo do Facebook. A boa notícia para nós, é que ele próprio já está a dizer-nos que as mudanças no sistema serão eficientes o suficiente para deixar os nossos dados mais seguros e, quem sabe, começar a vislumbrar uma era pós-Facebook.

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