As últimas semanas têm sido especialmente agitadas no universo da App Store. E de uma forma nada positiva. Da polémica com a aplicação de e-mails Hey! à desistência da Microsoft de disponibilizar o serviço xCloud no iOS, do depoimento de Tim Cook no Congresso americano ao lançamento da Setapp para o iPhone e iPad, do banimento do Fortnite às queixas do Spotify e Airbnb, parece que o clima de tensão velada que regeu ao menos os últimos cinco dos doze anos de existência da App Store transformou-se numa violenta erupção.

O evento de anúncio da App Store, em 6 de março de 2008, é uma pequena cápsula do tempo. Para a realidade de 2020, chega a ser engraçada e quase inocente a surpresa da plateia com a possibilidade de lançar um update da aplicação e, em seguida, aplicar o update de forma (quase) instantânea e (quase) automática. É curioso como algo tão trivial hoje em dia tenha sido recebido com tanta surpresa e com tantos aplausos. Mas esta era a realidade da época.

E a Apple, claro, sabia disso.

Assim, apoiando-se nas dificuldades de hospedar, distribuir, cuidar dos pagamentos e lidar com os pormenores que envolviam a distribuição de software na época, Steve Jobs explicou as regras do jogo de forma clara e direta: a App Store seria a única forma de distribuir aplicações para iPhones, e a Apple ficaria com 30% dos ganhos. “Para ajudar na manutenção da loja, sabe?”. Outras regras incluíam a proibição de aplicações de conteúdo adulto, aplicações que colocassem em risco a privacidade dos utilizadores (hmmm….) e, a minha categoria favorita, aplicações que parecessem, de alguma forma, indevidas. “Nós saberemos quando as virmos”, disse Jobs à época.

E sabes qual é a parte mais curiosa disso tudo? A própria existência da App Store é resultado de uma decisão que a Apple teve de tomar a contragosto. Antes disso, para tentar responder aos pedidos da permissão de disponibilizar aplicações no iOS, a Apple anunciou o que ela (e só ela) chamou de “sweet solution”: o iPhone poderia rodar.. web apps!

Sim, ao invés de desenvolver aplicações complexas e continuar disponibilizando-as para utilizadores com Jailbreak instalado, à época a única forma de instalar aplicações não-nativas no iOS, a solução proposta pela Apple foi a de desenvolver o que basicamente eram mini-websites que rodariam nos iPhones. A sweet solution foi recebida tão bem pelos desenvolvedores quanto uma cotovelada no olho.

E assim, em março de 2008, Steve Jobs e a sua trupe subiram ao palco para anunciar que o iPhone teria, enfim, uma loja de aplicações.

Pois bem. Cá estamos 12 anos depois, e as regras seguem as mesmas na sua maioria. A App Store ainda é a única forma de distribuir aplicações, a Apple ainda morde 30% das vendas, e grande parte de aplicações proibidas em 2008 seguem proibidas em 2020.

Ainda assim, sabes o que mudou? Tudo.

Há alguns anos conversa-se sobre a possibilidade desses 30% de comissão serem desproporcionalmente altos na atualidade em comparação com 2008. É verdade que hoje em dia a Apple corta a comissão para 15% no caso de assinaturas a partir do segundo ano, mas isso é visto como insuficiente pela maior parte do mercado desenvolvedor.

Ao mesmo tempo, especialmente no mercado de jogos, a realidade de 2020 é bem diferente da realidade de 2008. Enquanto a Apple mantém a regra de não permitir lojas paralelas à App Store para jogos (exceto, claro, no caso da PRÓPRIA loja paralela de jogos chamada Apple Arcade), o mercado está evoluindo a passos largos para uma dinâmica de streaming: ao invés do utilizador gastar rios de dinheiro comprando uma consola que inevitavelmente ficará obsoleta dentro de alguns anos, ele pode apenas assinar o acesso aos jogos das consolas para jogar por streaming em dispositivos móveis. Isso ainda é algo incipiente, mas a Google, Amazon e Microsoft estão a mergulhar neste segmento com diferentes níveis de sucesso e profundidade.

Recentemente a Microsoft criticou publicamente a regra da Apple de não permitir streaming de jogos na App Store, e a Apple reafirmou a regra com um depoimento que poderia ser resumido como “Lamento. ¯\_(ツ)_/¯”.

Por fim, temos a novidade da semana: o serviço Setapp, basicamente uma Netflix de aplicações para Mac, está a chegar ao iOS. Assinantes da versão para Mac podem pagar um valor a mais e, em troca, recebem um código que ativa a assinatura das apps também no iOS. A gambiarra que foi desenvolvida para viabilizar essa assinatura por fora da App Store e, ainda assim, estar em conformidade com as regras da App Store é admirável. Tecnicamente, as apps não estão a quebrar nenhuma regra da App Store apesar de estarem a ser disponibilizadas numa loja paralela e, ainda por cima, evitando a comissão de 30% que é cobrada na loja.

Isso tudo, claro, sem falar na polémica com a aplicação Hey! que, por ser recente, deves ter lido a respeito e sabes do que estou a falar. E não explorarei também o facto da Epic Games ter provocado o banimento do Fortnite na Play Store e na App Store para dar início a uma campanha de combate a monopólio, abrir processos contra a Apple e contra a Google e fisgar o apoio da opinião pública para inaugurar mais uma guerra que todos sabemos que está apenas a começar.

O que é curioso observar, é que tudo isso está a acontecer basicamente ao mesmo tempo. Parece que o mercado perdeu o medo de tentar contornar as regras impostas pela Apple. Ao mesmo tempo, a empresa está sendo pressionada por todos os lados (desenvolvedores, sociedade, legisladores) para dar QUALQUER indicação de que reconhece que as suas regras estão defasadas para a realidade da nova década e que está disposta a explorar novos caminhos. Improvável, eu sei. Mas o Método Zuckerberg® de enfiar a cabeça num buraco e esperar a crise passar sozinha não me parece que será eficiente nesta situação.

Adiciona a isso, claro, a notícia de que Phil Schiller, chefe da App Store e da área de PR da Apple estar a inicar o seu processo de reforma. O confuso anúncio de que ele está a ir embora, porém continua lá, porém está a ir embora, porém continua lá é algo que só fará sentido dentro de alguns anos, quando um livro ou um ex-funcionário nos presentear com a real história por trás da fachada de calmaria que chega ao grande público via Apple Newsroom.

Mas uma coisa é facto: a cada dia, surge uma nova crítica, uma nova tentativa, uma nova forma, uma nova situação que dão ainda mais corpo para o tsunami que inevitavelmente obrigará a Apple a admitir que a App Store de 2008, desenhada a contragosto por Steve Jobs e Phil Schiller e fruto da extrema dificuldade de distribuir aplicações para centenas de milhares de utilizadores já não faz mais sentido em 2020, quando nem Steve Jobs e nem Phil Schiller (talvez?) estão por lá, a evolução tecnológica obliterou a dificuldade de distribuir aplicações, e as centenas de milhares de utilizadores transformaram-se em pouco mais de 1 bilhão de pessoas que, assim como os próprios desenvolvedores, aguardam ansiosamente por mudanças e por mais opções para fazer o máximo uso dos seus iPhones.