Quando a Apple anunciou um MacBook abaixo dos 700€, o impacto foi imediato — e dividido. Por um lado, curiosidade genuína. Por outro, uma boa dose de ceticismo. Afinal, estamos a falar de uma marca que construiu a sua reputação precisamente no oposto do “acessível”. E no mundo dos portáteis, “barato” raramente é sinónimo de “bom”.
Mas o MacBook Neo entra em cena com uma proposta diferente. Não tenta justificar o preço com compromissos evidentes, nem com truques de marketing. Não tenta ser um “Mac barato”. Tenta ser, simplesmente, um Mac — com tudo o que isso implica.
E essa pode ser, precisamente, a sua maior força. Bastam poucos minutos com o MacBook Neo para perceber que este não é um produto que vive de concessões óbvias. A Apple não quis criar um portátil que parece premium à primeira vista, mas que desilude ao toque. Pelo contrário: a experiência é imediatamente familiar para quem já usou um Mac — e surpreendente para quem vem de outras plataformas.
O Neo não pede desculpa pelo preço. Nem parece estar constantemente a lembrar-te de que é o modelo mais barato da gama. E isso, por si só, já o coloca num patamar raro dentro deste segmento.
Construção: onde não houve cortes
Uma das maiores dúvidas quando uma marca premium baixa o preço é sempre a mesma: “onde é que cortaram?”
No caso do MacBook Neo, a resposta é clara — não foi na construção.
Temos aqui um chassis em alumínio, sólido, frio ao toque, com aquele nível de rigidez que já se tornou assinatura da Apple. Nada de flexões estranhas no teclado, nada de ecrãs que abanam ao mínimo toque, nada de ruídos ocos ao pegar no portátil.

Num mercado onde os portáteis abaixo dos 700€ são frequentemente dominados por plásticos (ou, pior ainda, plástico a imitar metal), o Neo destaca-se de forma quase absurda. Parece, sente-se e comporta-se como um produto de outra categoria.
E depois há o detalhe estético. A Apple também decidiu arriscar nas opções de cores — algo que raramente vemos na linha Mac. O resultado é um portátil com personalidade, vibrante, e mais apelativo para um público jovem. Não é só mais um bloco cinzento numa secretária. É um objeto que chama realmente a atenção.

E isso importa — especialmente para o público-alvo que a Apple parece querer conquistar aqui.
Os cortes (porque tinham de existir)
Claro que, por este preço, não seria realista esperar perfeição total e absoluta. Há cortes. E alguns são difíceis de entender.
O mais duvidoso? Sem dúvida, a ausência de teclado retroiluminado.
Em 2026, isto não devia ser sequer uma discussão. Muito menos num portátil pensado para estudantes, criadores e utilizadores móveis — pessoas que frequentemente trabalham à noite, em ambientes com pouca luz.

É uma daquelas decisões que não se nota numa ficha técnica… mas sente-se todos os dias na utilização real. E não da melhor forma.
Outro ponto questionável é a ausência do MagSafe. Quem já usou um Mac com este conector sabe o quão útil ele é — não só pela conveniência, mas pela segurança. Um simples puxão no cabo deixa de ser um problema. Aqui, não. Aqui, um descuido pode significar um portátil no chão. Um investimento destruído!
E depois há a questão das portas. Uma das duas entradas USB-C ser apenas 2.0 em pleno 2026 levanta sobrancelhas. Não é um dealbreaker, mas é um daqueles detalhes que não combinam com a imagem de modernidade que o resto do produto transmite.

O que não faz falta (mesmo quando falta)
Nem todos os cortes são negativos. E o MacBook Neo prova isso em alguns pontos-chave.
O trackpad é um excelente exemplo. Não é Force Touch, mas… honestamente? Não faz diferença no dia a dia. Continua a ser grande, preciso, consistente e extremamente confortável de usar. A Apple continua anos à frente da concorrência neste campo.
O mesmo pode ser dito do sistema de som. Não é espetacular. Não vai substituir colunas externas, nem impressionar audiófilos. Mas é sólido, equilibrado e perfeitamente adequado para consumo individual de conteúdo.
E ainda, a ausência de Touch ID no modelo base acaba por ser menos problemática do que parece. Para quem usa Apple Watch, o desbloqueio automático compensa bastante bem. Não é ideal — mas é perfeitamente contornável.
Desempenho é um trunfo, não uma fraqueza
Se há área onde o MacBook Neo surpreende verdadeiramente, é no desempenho.
Equipado com o A18 Pro — um processador vindo diretamente do iPhone 16 Pro — e apenas 8GB de RAM, seria fácil assumir que este é um portátil limitado. Mas a realidade é bem diferente.

No uso diário, o Neo é rápido, fluido e consistente. Multitarefa? Sem problema. Várias abas abertas no navegador? Tranquilo. Alternar entre apps? Instantâneo.
E quando puxamos mais por ele? Edição de vídeo em 4K, edição de imagens, enfim, workflows criativos leves, o Neo aguenta-se surpreendentemente bem. Não é uma máquina para profissionais exigentes — mas também não tenta ser.
Para o público-alvo a que se destina, é mais do que suficiente.
Aqui, mais uma vez, entra em jogo a magia da Apple: a integração entre hardware e software. Os 8GB de RAM não contam a história toda. A otimização do macOS faz com que o sistema se comporte de forma muito mais eficiente do que seria expectável noutras plataformas.

Ainda assim, é legítimo questionar a escolha do processador.
O facto de ser um processador com mais de 1 ano no mercado e baseado numa arquitetura de iPhone — não num Apple Silicon da linha M — levanta dúvidas sobre a sua longevidade. Especialmente tendo em conta a limitação de memória RAM. Não é um problema hoje. Mas pode vir a ser daqui a dois anos.
A Apple não se compromete com números concretos de atualizações para esta sua nova gama. Mas, realisticamente, três grandes versões de macOS parece um cenário plausível e extremamente expectável.
Não é mau. Mas também não é extraordinário. Especialmente para um produto que, apesar de acessível dentro do mundo Apple, continua a ser um investimento significativo, e pelo facto da Apple ter habituado o público ao mínimo acesso a 7 anos de atualizações de sistemas.
Ecrã simples, mas eficaz
Falando do ecrã do MacBook Neo, ele não tenta reinventar nada e essa é a melhor decisão.
Temos um painel Retina de 13 polegadas, com boa reprodução de cores sRGB (pena deixar a gama P3 de lado…), excelente nitidez e brilho de 500 nits, mais do que suficiente para a maioria dos cenários. Não há compromissos graves. É um ecrã que cumpre — e cumpre bem a sua função.

Curiosamente, as margens ligeiramente mais espessas acabam por ter um efeito inesperado: evitam o notch. E para muitos, isso é um ponto positivo.
Autonomia sem compromissos!
Se há área onde a Apple raramente falha na era Apple Silicon, é na autonomia. E o MacBook Neo não é exceção. Em uso normal, é perfeitamente possível chegar ao final do dia com bateria de sobra — ou até estender a utilização para um dia e meio sem grandes preocupações.
Para quem vem do mundo Windows, isto continua a parecer quase irreal. Para quem já usa Mac, é simplesmente o esperado. E isso, neste caso, é uma excelente notícia.
O veredito
O MacBook Neo entrega algo que poucos produtos nesta faixa de preço conseguem: qualidade! Num segmento onde “acessível” costuma significar compromisso constante, a empresa da maçã entrega solidez, rapidez, e, acima de tudo, confiabilidade.
No fim de contas, o Neo é um sinal claro pro mercado de que dos lados de Cupertino há vontade de expandir o seu ecossistema. Uma expansão que não quer comprometer aquilo que sempre definiu a Apple. E isso faz-nos lembrar uma frase que o seu fundador disse uma vez: “We don’t ship junk.”
O MacBook Neo prova que, vinte anos depois, essa frase continua a ecoar pelos corredores circulares do Apple Park. E por menos de 700€, isso diz tudo.