Sem Jobs, as TVs ainda são um BlackBerry...

Quando olho para a minha TV de casa, sinto-me mais próximo de estar a utilizar um BlackBerry do que um iPhone, no que a real inovação diz respeito.
Escrito por Marcus Mendes e
3 mins de leitura
Sem Jobs, as TVs ainda são um BlackBerry...
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“...é o 11º aniversário da data em que Steve Jobs deixou o cargo de CEO da Apple. Naquela noite, enquanto eu escrevia um artigo a respeito da sua carreira, ele ligou-me para dizer que permaneceria no ativo num projeto que viria reinventar a TV. Disse-me que mostraria algo dentro de alguns meses. Morreu 6 semanas depois”.

Foi com este tweet que o agora reformado jornalista Walt Mossberg lembrou o mundo da tecnologia de um facto que, caso contrário, imagino que teria passado ao lado dos comentadores e entusiastas da história da Apple. Eu não sei o que achas, mas sinto-me um pouco triste quando penso neste último projeto que Jobs não teve a oportunidade de levar a cabo. Mais do que isso, um projeto que muito provavelmente levaria a um novo patamar a experiência que ainda temos hoje com as nossas TVs, 11 anos depois.

Na biografia de Steve Jobs, por Walter Isaacson, este episódio também é contado com um pouco mais de detalhe. Se não me falha a memória, Steve Jobs já estava com a saúde muito debilitada quando viu Mossberg pela última vez, alguns dias depois de deixar o cargo de CEO da Apple. Neste último encontro, Jobs disse a Mossberg que havia finalmente solucionado o enigma do que faltava para a evolução da TV no mesmo vetor que o iPad havia evoluído o mercado de tablets, o iPhone havia evoluído o mercado de smartphones, e o iPod havia… bem, evitado o até então inevitável colapso do mercado fonográfico.

Por muito tempo, inclusive, após a morte de Steve Jobs, o lançamento da sua biografia e esta história do futuro da TV se ter tornado pública, qualquer anúncio que a Apple fizesse relacionado a este mercado vinha acompanhado da obrigatória esperança de que era aquilo a que Steve Jobs se referia quando disse para Mossberg que a Apple havia solucionado o mercado de TVs. “O futuro da TV são apps”, a própria Apple bradou quando anunciou a Apple TV na sua formatação atual, com a dinâmica de interação por meio do Siri Remote e a App Store repleta de jogos e incipientes versões de plataformas de streaming (que naquela altura se resumiam a YouTube e uma promissora Netflix).

Anos depois, cá estamos. E ironicamente, o futuro da TV realmente eram apps. Hoje em dia, até mesmo os sistemas operativos das TVs já trazem uma coleção de apps. Muitas de streaming, quase nenhuns jogos. Ao longo dos últimos anos, Hollywood viveu o que analistas de mercado chamam de A Nova Era de Ouro da TV, com orçamentos praticamente ilimitados para rechear os catálogos dos inúmeros serviços de streaming que pipocavam todos os dias em busca do próximo grande sucesso no mercado de conteúdos originais. Já os jogos… bem, curiosamente, eles também parecem estar a encontrar no streaming a solução para os seus maiores problemas. Enquanto a Sony e a Microsoft ainda lutam para encontrarem chips suficientes para dar conta da demanda das suas avançadas consolas, elas (e todo o resto do mercado) apostam a corrida também para montar a estrutura ideal e oferecer os seus jogos com gráficos avançados por meio de streaming, eliminando a necessidade da compra do hardware – que por sinal, a Sony acaba de anunciar que ficará mais caro para equilibrar o custo de componentes e a alta demanda.

Ainda assim, quando olho para minha TV, esteja ela com a Apple TV ligada ou não, às vezes ponho-me a pensar se era isso que Jobs tinha em mente quando decretou com orgulho que havia solucionado o problema deste mercado. Pergunto-me se ele próprio sabia que não teria alguns meses à disposição para ver o projeto a cabo, e deixou a sua estrutura inteira planeada para desenrolar nas semanas, meses e anos após o seu falecimento. Penso isso, e concluo que não. Por mais que o acesso aos conteúdos tenha melhorado, a experiência de uso da TV ainda está mais próxima do passado, do que do futuro. Não que eu esteja em busca de uma TV holográfica, enrolável, nem nada assim. E não, também, que eu esteja decepcionado com a evolução técnica dos ecrãs, com os seus promissores pontos quânticos que torço para que fiquem mais baratos em breve.

Mas por mais que a Apple TV tenha, sim, indicado para todo o mercado de entretenimento que o futuro daquela media seriam apps, quando olho para a minha TV, sinto-me mais próximo de estar a utilizar um BlackBerry do que um iPhone, no que a real inovação diz respeito. O que me aflige é pensar que, assim como diziam os rumores da época, a Apple tinha mesmo planos para lançar a sua própria televisão, mas talvez tenha desistido do projeto após a morte de Jobs para passar a dar mais foco à encarnação da Apple TV que conhecemos hoje. Se este é o caso, é uma grande pena.

Pena essa que não é maior do que a falta que, de tempos em tempos, todos nós somos lembrados que Jobs ainda faz.

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