Um novo candidato ao Hall da Fama da Miopia

Um novo candidato ao Hall da Fama da Miopia

Marcus Mendes
∙ 4 minutos de leitura

(Nota: escrevi este texto antes da publicação deste post do John Gruber em que ele faz basicamente os mesmos argumentos. Pensei em escrever algo diferente para não parecer apenas uma repetição dos pontos dele, mas concluí que, mesmo vindo depois, os pontos originais eram válidos. Vamos lá.)

Na história recente da tecnologia, existem duas frases catastroficamente célebres. Ambas relacionadas ao iPhone.

A primeira, do então CEO da Palm, Ed Colligan, veio em 2006 quando ele foi perguntado se estava com medo da entrada da Apple no mercado de telemóveis. O executivo foi categórico:

“Passámos os últimos anos a aprender a duras penas como se faz um telefone satisfatório. Este pessoal do mundo dos PCs não vai simplesmente matar essa charada. Eles não vão simplesmente entrar no nosso território”.

Já a segunda, veio de Steve Ballmer, então CEO da Microsoft, dias depois do anúncio do iPhone:

“Hahaha! Quinhentos dólares com subsídio de plano da operadora? Esse é o telefone mais caro do mundo, e ele não terá muito apelo para clientes do mundo empresarial porque ele não tem um teclado fisico, e isso não faz do iPhone uma máquina muito eficiente para mandar e-mails. Talvez eles vendam bem, talvez não. Nós temos a nossa estratégia, temos ótimos telefones Windows Mobile no mercado, você compra um Motorola Q por US$ 99, ele toca música, ele tem internet, tem e-mail, troca mensagens de texto. Então eu olho pra isso e penso que gosto bastante da nossa estratégia.”

E ele foi além:

“Neste momento, estamos a vender milhões e milhões e milhões de telefones por ano, e a Apple está a vender zero telefones por ano. Dentro de seis meses, eles terão o telefone que, de longe, é o mais caro do mercado, e aí vamos ver o que vai acontecer com essa concorrência.”

Bom, nós vimos.

É claro que é muito fácil analisar estas fases em retrospecto e enxergar como elas eram estapafúrdias. Também é evidente que ambos CEOs estavam apenas a fazer o papel deles. Mais impressionante do que essas reações, seria algo que indicasse falta de confiança nas próprias empresas frente à entrada de um novo concorrente sem tradição naquele mercado. Dá para entender a posição de ambos, apesar de mesmo assim ter faltado um certo refinamento na mensagem a ser passada. Alguém de relações públicas certamente perdeu o emprego em pelo menos um desses casos.

Dito isto, cá estamos novamente nesta situação, desta vez com carros. No meio de um mar de rumores (contraditórios) a respeito do tal do carro da Apple, o CEO da Volkswagen Herbert Diess adotou uma postura bastante parecida com a de Ballmer e de Colligan sobre como ele vê a possível entrada da Apple no mercado dele:

"A indústria de carros não é um segmento igual ao do setor de tecnologia em que dá para passar a controlar de uma hora para a outra. A Apple não vai conseguir fazer isso da noite para o dia”.  

Ele seguiu em frente dizendo que a entrada da Apple neste mercado é natural, já que ela tem experiência com baterias, com software e com design, além de ter condições financeiras confortáveis para evoluir estas experiências, mas ainda assim ele disse que não está com medo.

Pois bem. É possível traçar paralelos gritantes entre a declaração de Herbert Diess e as declarações de Ballmer e Colligan que citei acima. A diferença é que Diess… tem uma certa razão.

Não faz muito tempo, escrevi uma crónica em que defendi que o rumor de que a Apple estaria a desenvolver um carro completo nunca me convenceu. Eu disse que “sempre me pareceu fazer mais sentido ela lançar um sistema operativo inteligente para o carro ao invés de um carro completo, assim como sempre me pareceu fazer bem mais sentido a Apple lançar um sistema operativo para a TV ao invés de uma TV completa”, e mantenho completamente esta impressão mesmo com o surgimento de rumores cada vez mais frequentes de que a Apple está, de facto, a projetar um veículo completamente do zero.

Uma falha no argumento do CEO é o facto dele ignorar o volume gigantesco de contratações de engenheiros do setor automotivo (inclusive da Volkswagen) que a Apple tem feito nos últimos anos. O fruto dessas contratações não pode ser visto em iPhones, em iPads e em Macs, além das áreas em que o CEO listou. Especialmente a de baterias.

Mas facto é que a Apple vem a colecionar executivos renomados do setor, inclusive da Tesla que teoricamente será a principal concorrente dela, e esse pessoal tem o que parece ser um fundo financeiro infinito para projetar, investigar e evoluir as tecnologias que a Apple realmente nunca teve expertise. Coisas como transmissões, marchas… bem, todo o resto do carro além do design, do software e da bateria.

Já um segundo facto gritante que o CEO parece ignorar é um pouco mais perigoso para a empresa: o argumento de que “a Apple não vai entrar neste mercado da noite para o dia e mudar tudo” parece esquecer que, ao contrário de outras empresas da maioria dos setores, a Apple costuma esperar quanto tempo for necessário para lançar alguma coisa.

Como bem lembrou Mark Gurman recentemente, o HomePod começou a ser desenvolvido em 2012, e só ao chegou ao mercado em 2018. Se ela esperou todo esse tempo para lançar algo praticamente inconsequente para o faturamento e para o futuro dela, imagina a minúcia com que este carro está a ser feito, se ele realmente estiver a ser feito.

É claro que existe uma gigantesca chance da Apple lançar esse carro depois de todo esse tempo de planejamento e desenvolvimento cuidadoso, e ele não dar certo. Está aí o HomePod de novo para comprovar este ponto. A diferença aqui, é que estamos a falar de uma empresa que não tem medo de alterar drasticamente e rapidamente a direção dos seus produtos (Olá, Apple Watch!), custe o que custar.

Um último ponto: a Tesla foi fundada em 2013, e hoje vale mais do que todas as montadoras automotivas do ocidente juntas. Se tem uma coisa que o mercado automotivo tradicional comprova todos os dias, é que ele é completamente incapaz de acompanhar as mudanças trazidas de fora por empresas do setor de tecnologia. Talvez a culpa disso seja da soberba de pensar “estamos aqui há décadas. Sabemos como se faz, e o único jeito é o nosso”. Neste caso, aí sim o lugar de Herbert Diess já estará reservado no Hall da Fama da Miopia, junto com Ballmer, Colligan, e tantos outros.