Esta semana, acho justo dizer que a Apple apanhou todos de surpresa com o anúncio de que cortaria a comissão da App Store para 15% no caso de desenvolvedores/apps que faturam menos de US$ 1 milhão por ano. Existem, claro, inúmeros asteriscos e pormenores que limitam a forma como esta regra será aplicada, mas na sua essência esta notícia é bastante positiva.

E ela não é positiva apenas para os desenvolvedores, que basicamente ganharam um aumento de salário inesperado ao redor do mundo como resultado disso. Ela é positiva porque faz parte de uma lenta, porém bastante bem-vinda evolução não só da App Store como um todo, mas também com a relação entre a Apple e os desenvolvedores independentes.

É bem verdade que, como o instituto App Annie explicou, esta mudança não irá afetar significativamente o faturamento da Apple. Hoje, 95% do faturamento da App Store vem de apenas 2% de desenvolvedores que faturam mais do que US$ 1 milhão por ano. Isso significa que aproximadamente 98% dos desenvolvedores passarão a receber mais a cada venda, e do lado da Apple ela verá um impacto de mais ou menos 5% no faturamento da App Store.

Enquanto muitos viram isso como uma forma esquiva de tentar manipular a opinião pública e a opinião dos desenvolvedores com uma decisão que praticamente não será sentida pelos cofres da Apple, eu vejo isso como a solução perfeita para um dos principais problemas da App Store: a injustiça trazida pelo nivelamento das regras.

Explico: apesar de haver exceções, a Apple sempre se orgulhou de aplicar as mesmas regras da App Store para todos os desenvolvedores. Sabemos que isso não é exatamente verdade, mas deixemos isso de lado neste momento. Facto é que não importa se és um desenvolvedor independente ou uma Zynga, sempre precisarias de entregar à Apple 30% do teu faturamento. O problema é que esses mesmos 30% têm pesos muito diferentes para a Zynga e para o desenvolvedor independente. O desenvolvedor independente, por vezes, possui APENAS as apps dele como fonte de renda. Já a Zynga (ou qualquer outra empresa congénere) tem muito mais elasticidade financeira para poder abrir mão (ainda que de forma relutante) desses 30%.

Ao cobrar 30% de forma igualitária para (quase) todos os desenvolvedores, a Apple sempre prejudicou bastante todo o mercado independente de desenvolvimento de aplicações.

Seguindo esta mesma lógica, não foi nenhuma surpresa ver empresas como o Spotify e a Epic Games (ambas com litígios em curso contra a Apple justamente por causa da App Store) se manifestarem contrárias a essa decisão. Essas empresas, todas com faturamento bem acima de US$ 1 milhão por ano, sentiram-se prejudicadas por terem ficado de fora das novas condições. Nessa reclamação, elas não levam em conta o facto de que nos últimos 12 anos elas se privilegiaram bastante deste terreno relativamente plano dentro da App Store.

É claro que ainda há muito a ser feito na App Store. Na verdade, a esta altura é impossível esperar que ela se torne a loja perfeita, afinal, nada deste tamanho consegue ser perfeito. Mas quando eu penso no texto “É o fim da App Store como a conhecemos”, que escrevi há 3 meses aqui no iFeed, é difícil não pensar em quantas coisas mudaram neste curto espaço de tempo. A comissão independente julgadora da App Store está a funcionar, as decisões unilaterais de remoção de apps estão a minguar, as regras da App Store estão a ser atualizadas (ainda que lentamente), e agora um desenvolvedor pequeno tem 15% menos motivos para se sentir desmotivado para fazer uma aplicação.

Não podemos esquecer-nos que esta redução da comissão não elimina as más atitudes da Apple, é claro. Ela ainda merece ser julgada por práticas anticompetitivas, por exemplo. Mas uma coisa é facto: mesmo que aos poucos, a App Store parece estar a corrigir o curso e a mover-se para a direção certa. Que continue assim.