“Quem leva o próprio software a sério deveria também fazer o próprio hardware”. Foi com essa frase de Alan Key que Steve Jobs explicou, em 2007, que o iPhone rodaria o iPhoneOS: um sistema operativo baseado no OS X, para tirar o máximo proveito das especificações técnicas que o dispositivo tinha a oferecer.

Poucas frases se provam tão verdadeiras e com tanta consistência no mundo da tecnologia quanto esta. Uma possível exceção é o Android que, desde o seu lançamento há 13 anos, lidera o mercado móvel em market share com a sua estratégia de “open always wins”.

Bem, mais ou menos, né? Mesmo com todo o sucesso do Android, há alguns anos a Google percebeu que existia espaço no mercado para o lançamento de uma linha própria de dispositivos. Assim nasciam os telefones Pixel que até conseguem tirar proveito do Android com recursos que seguem indisponíveis (ou tardam a chegar) para outras fabricantes.

Especialmente no último ano, ou talvez nos últimos dois anos, a linha Pixel também tem servido para comprovar outro segredo aberto do mundo da tecnologia: fazer o próprio software e o próprio hardware é MUITO difícil!

O último grande lançamento da Google no mercado de smartphones, o Google Pixel 5.

Não é a toa que há décadas a Microsoft lidera em market share o mercado de PCs, e há anos tenta emplacar (sem muito sucesso) a linha Surface. O Surface é o Pixel do mundo dos PCs: uma ótima ideia, um ótimo hardware, mas que falha consistentemente na tarefa de despertar o interesse do grande público.

A Microsoft segue tentando e experimentando com o Surface.

O facto de ambos ainda estarem disponíveis em pouquíssimos países não é uma coincidência. É a indicação de que tanto a Google quanto a Microsoft sabem que o desafio de fazer o software, fazer o hardware e, com sorte, fabricar dezenas e dezenas de milhões de unidades para enviar para o mundo inteiro é o maior desafio do mercado dos bens de consumo de tecnologia do século 21.

O que me traz de volta ao mundo da Apple e, especificamente, ao evento que ela anunciou de surpresa para o dia 10 de novembro. A esta altura, já dá para cravar que esse evento servirá para apresentar ao mundo a linha de Macs com processadores ARM ou, como a empresa tem dito, com Apple Silicon.

Na minha segunda crónica aqui no iFeed, eu escrevi que o Apple Silicon será o maior desafio da era Tim Cook. Sigo acreditando piamente nisso, mas não vou repetir os argumentos aqui, afinal, podes lê-los por si só aqui. Ao invés disso, vou aproveitar o espaço de hoje para postular que a próxima terça-feira marcará não só um novo capítulo na história do Mac, mas também uma nova vida a toda a linha.

Pensa por um segundo nos iPhones, e em como os processadores do ano passado ainda ganham com folga os comparativos feitos com os processadores que a Qualcomm lançou em 2020 para os Androids topo de gama. Pensa como o total controlo sobre cada aspecto do processador é decidido e definido de acordo com as necessidades e as possibilidades exatas de cada nova geração de iPhones, e como isso tem possibilitado a evolução do iPhone, do iOS e, curiosamente, da própria tecnologia dos processadores que os alimentam.

Agora pensa em quantas vezes vimos a Intel pisar na bola com atrasos, mudanças de planos, entregas aquém do esperado, promessas quebradas, novos atrasos, e como isso inevitavelmente tem atrasado há mais de 10 anos a plena evolução da linha de Macs. É como se a Apple estivesse a tentar correr uma maratona com uma bola de ferro amarrada ao pé. É triste comparar a Intel de hoje com a Intel de há 10, 15 anos, mas cá estamos. Hoje, a Intel é apenas a sombra da grande empresa que já foi um dia, ela parece já estar conformada com a própria incompetência em acompanhar a evolução tecnológica na mesma velocidade da concorrência.

Natural, é claro, que a Apple tenha decidido abandonar a Intel. Todos os anos, a atualização de iPhones veio a dar à Apple um pouquinho mais de confiança para seguir investindo na suas própria divisão de chips para, um dia, equipar os Macs.

Esse momento chegou. O Apple Silicon não é apenas um processador. Ele é o portal que permitirá que o Mac desamarre a bola de ferro do pé e passe a voar com total controlo sobre o próprio destino e, principalmente, sem limites para a própria evolução.