A próxima grande aposta da Apple pode esbarrar à porta de Portugal
A Apple marcou para a próxima terça-feira um lançamento dedicado à casa inteligente e tudo indica que a principal novidade será um produto há muito prometido: um Home Hub, com um pequeno ecrã quadrado, com cerca de seis polegadas, disponível em versões para pousar numa bancada ou fixar à parede. Terá uma câmara para chamadas FaceTime e, numa das versões, uma base com colunas que faz lembrar o antigo iMac G4. Segundo Mark Gurman, da Bloomberg, a apresentação deverá incluir ainda um HomePod mini e uma Apple TV 4K renovados, ambos com processadores mais rápidos para tirar partido da nova Siri AI. O preço do ecrã poderá rondar os 350 dólares.
É uma das apostas mais interessantes da Apple dos últimos anos. Depois de conquistar os bolsos, os pulsos e os ouvidos dos utilizadores, a empresa de Cupertino quer finalmente encontrar um lugar permanente nas nossas casas. Mas, para quem vive em Portugal, há uma questão mais importante do que o desenho ou o preço: será possível comprar e utilizar o novo equipamento sem as limitações que há anos acompanham os produtos da Apple para a casa?
O problema começa no sistema operativo. O chamado homeOS, nome ainda por confirmar, deverá colocar a Siri AI no centro da experiência. Haverá um ecrã tátil, aplicações da Apple e widgets semelhantes aos do iPhone, mas não está prevista uma App Store. A interação por voz terá um papel fundamental. O objetivo é que o equipamento reconheça quem está à sua frente, mostre informação personalizada e permita controlar a casa sem ser necessário navegar por menus.
É precisamente aqui que a realidade portuguesa começa a complicar-se. E há três razões para isso.
A primeira é comercial. A Apple nunca vendeu oficialmente um HomePod em Portugal. Quem tenta encontrar o HomePod mini na loja portuguesa da marca acaba por descobrir que o produto simplesmente não existe no catálogo. Em Espanha, pelo contrário, está à venda por 139€. Os portugueses que têm um HomePod em casa compraram-no através de revendedores que o importam, de lojas como a Powerplanet ou numa viagem ao país vizinho.
A segunda é a língua. A Siri ganhou suporte para português de Portugal no iPhone com o iOS 26.1, no final de 2025. Mas esse avanço nunca chegou ao HomePod. Quem tem uma destas colunas em Lisboa, no Porto ou em Braga continua a ter de falar com ela em inglês ou castelhano. Para um produto que depende de comandos de voz, não é propriamente um detalhe. E se a barreira já é evidente numa coluna que serve sobretudo para ouvir música, consultar a meteorologia ou controlar as luzes, torna-se ainda mais difícil de ignorar num equipamento cuja principal novidade é uma assistente capaz de conversar.
A terceira limitação é a mais recente e talvez a mais difícil de explicar. A Siri AI chegou com o iOS 27, mas não está disponível no iPhone, iPad ou Apple Watch na União Europeia. A Apple aponta para as exigências regulamentares europeias e continua sem apresentar uma data para resolver a situação. O português está previsto para outubro, mas apenas nos dispositivos em que a funcionalidade pode ser utilizada, como o Mac e o Apple Vision Pro.
O resultado é uma contradição difícil de ignorar. A Apple prepara um novo equipamento para a casa cuja principal razão de existir é a Siri AI, ao mesmo tempo que mantém essa tecnologia indisponível nos iPhone dos utilizadores europeus. Não significa necessariamente que o novo ecrã venha a sofrer da mesma restrição. A Apple ainda não explicou como será tratada a sua disponibilidade na União Europeia. Mas também não deu motivos para acreditar que Portugal terá acesso a todas as funcionalidades desde o primeiro dia.
Nada disto garante que o novo equipamento fique fora das lojas portuguesas. A marca ainda não anunciou os países onde será vendido e a apresentação da próxima terça-feira poderá trazer novidades. O histórico, contudo, recomenda alguma prudência. Se a Apple passou anos sem comercializar oficialmente uma coluna em Portugal, num mercado onde já vende milhões de outros equipamentos, não é evidente que venha a dar prioridade a um produto ainda mais dependente da voz.
A exceção é a Apple TV. Está disponível na loja portuguesa e não exige qualquer conversa com a Siri para cumprir a sua função. Liga-se à televisão, utiliza-se com um comando e dá acesso às aplicações de streaming habituais. Entre os três produtos esperados para 13 de outubro, é o único que já conquistou um lugar oficial no mercado português. Numa sala onde a box da operadora continua a ser o equipamento principal, é uma presença discreta, mas estabelecida.
Há ainda um pormenor que torna esta apresentação especialmente interessante. John Ternus, que assumiu a liderança da Apple em setembro, está a dar uma atenção invulgar às equipas de design. Segundo a Bloomberg, o novo CEO visita o estúdio várias vezes por semana, por vezes mais do que uma vez por dia. Tim Cook, pelo contrário, passava por lá cerca de uma hora por mês, no máximo. É uma mudança de prioridades que reflete também a diferença entre os dois líderes: Cook construiu a sua carreira nas operações e na cadeia de abastecimento. Ternus passou décadas a desenvolver os produtos da Apple.
A chegada de um engenheiro à liderança coincide, assim, com uma das primeiras tentativas sérias da empresa para criar uma nova categoria de produtos para a casa. É uma oportunidade para mostrar que a Apple continua capaz de encontrar espaço para a inovação fora do iPhone. Mas, em Portugal, pouco importa a atenção dedicada ao desenho de um equipamento se a dúvida mais básica continuar sem resposta: será vendido por cá e, se chegar, em que língua poderemos falar com ele?
Por enquanto, a casa inteligente da Apple em Portugal continua a ser uma Apple TV na sala, alguns acessórios ligados à aplicação Casa e, para os mais entusiastas, um HomePod comprado em Espanha a falar inglês na cozinha.
A Apple quer finalmente entrar em todas as divisões da casa. Era bom que, desta vez, não se esquecesse de ficar à porta de Portugal.




