A crise global de memória RAM já começou a fazer estragos bem visíveis no mercado dos computadores portáteis, e a Microsoft é um dos casos mais recentes. A empresa liderada por Satya Nadella aumentou de forma significativa os preços dos seus Surface Pro e Surface Laptop, com alguns modelos a subirem 500 dólares face ao valor de lançamento. A justificação está na escassez global de RAM, um fenómeno que tem vindo a pressionar os custos de produção em várias categorias tecnológicas.
Para a Microsoft, esta é uma má notícia. A marca sempre tentou posicionar os Surface como uma montra premium do ecossistema Windows, capazes de rivalizar com o iPad Pro e com o MacBook Air, tanto em desempenho como em design. No entanto, quando um portátil sobe demasiado de preço, mesmo mantendo qualidade, deixa de ser uma escolha racional para uma grande fatia do mercado. E é precisamente aqui que começa a surgir uma oportunidade interessante para o restante setor.

A entrada recente do MacBook Neo vem baralhar ainda mais as contas. O portátil da Apple chegou por 699€, ou 599€ no programa de Educação, posicionando-se como o Mac mais acessível de sempre e com um foco muito claro em autonomia, portabilidade e boa relação entre preço e desempenho. Num mercado em que os Surface estão a ficar mais caros, a simples existência de um MacBook a este preço muda a perceção do consumidor sobre aquilo que é, ou não, um portátil “premium acessível”.
Isto obrigou os fabricantes de portáteis Windows a reagir. Marcas como Lenovo, HP, Dell ou Asus estão a tentar aproveitar este momento para reforçar ofertas intermédias, com melhor equilíbrio entre especificações e preço, sobretudo se conseguirem evitar a escalada de preços sentida nos modelos de referência da Microsoft.
No entanto, voltando ao que importa, durante anos, a Apple foi vista como a marca “cara”, enquanto o universo Windows oferecia alternativas para quase todos os orçamentos. Com o MacBook Neo, essa narrativa perdeu força, pelo menos no segmento de entrada. Se um consumidor puder escolher entre um portátil Apple entre 500/600€ e um Surface substancialmente mais caro, a decisão deixa de ser apenas técnica e passa a ser também estratégica para a carteira.

No fundo, a escassez de RAM pode ser um problema sério para a Microsoft. E se a Apple conseguir capitalizar o momento com o MacBook Neo, então esta crise da RAM poderá ficar marcada não apenas como um período de escassez, mas como o momento em que o segmento dos portáteis acessíveis mudou de forma decisiva.
Cria-se, portanto, um vazio entre uma oferta inicial da Apple por um preço razoável, e os produtos de entrada da Microsoft no que aos portáteis diz respeito. Entre esse vazio, sobram as OEMs e os seus portáteis que, em certa medida, podem ter as specs e o preço adequados para combater as ofertas da Apple. Mas será que chega?