Apple, Flash e anticompetitividade

Apple, Flash e anticompetitividade

E se o caso da Apple vs Flash acontecesse nos dias de hoje? Será que a Apple seria obrigada pelos tribunais a ceder e permitir aplicações Flash no iOS?

Marcus Mendes
∙ 3 minutos de leitura

Quando a Apple anunciou o iPhone, em 2007, uma das polémicas quase imediatas foi em torno da ausência de compatibilidade entre o sistema e a plataforma Flash, da Adobe.

Na época, eu mexia no Flash diariamente. A tecnologia era praticamente a língua franca de animação na web, fosse para campanhas publicitárias, fosse para sites repletos de transições, efeitos, sons, e um espalhafato até certo ponto ingénuo que marcava a web daquela época.

A ausência do Flash no iPhone foi motivo de muitas matérias, muitas brigas, e até mesmo uma carta de Steve Jobs intitulada Thoughts on Flash, publicada em 2010.

Ao perceber que, depois de 3 anos, essa polémica ainda não havia ido embora, Jobs procurou explicar os motivos que levavam a Apple a seguir impedindo a tecnologia de funcionar no iPhone, possibilidade essa que era bastante valorizada por utilizadores de Android que viviam provocando os utilizadores de iPhone por não conseguirem valer-se da tecnologia.

Na carta, Jobs apresentou o seu caso dizendo que o Flash era pesado, pouco confiável e, principalmente, pouco seguro. A Apple já tinha apresentando a tecnologia HTML5 há algum tempo como a sucessora natural do Flash, e a esta altura, o mercado também estava a migrar para tecnologias alternativas porque não era nada conveniente oferecer um site que não podia ser acedido por uma parcela cada vez maior de utilizadores na web. Vale lembrar que a esta altura o iPad também já tinha sido lançado.

Pois bem. Com o passar dos anos, o Flash foi… morrendo. E foi uma morte bastante dolorosa. Conforme o mercado foi migrando para tecnologias alternativas, a própria Adobe (que passou anos a combater a posição da Apple) foi percebendo que esta era uma batalha perdida. Não demorou muito para o Flash entrar em uma espécie de modo de manutenção, recebendo atualizações periódicas para corrigir as inúmeras falhas de segurança que eram descobertas e exploradas web afora todos os dias. Este longuíssimo processo de aposentadoria concluiu-se apenas agora, em 2021, com o fim completo de suporte por parte da Adobe e dos principais navegadores do mercado.

Muito bem. Mas e se fosse hoje em dia? Com a infinidade de processos de práticas anticompetitivas sendo abertos diariamente por todo tipo de empresa que se sente prejudicada pelas decisões da Apple, não é difícil imaginar uma realidade paralela em que a Adobe poderia estar processando a Apple para garantir, nos tribunais, a obrigação do Safari do iOS rodar Flash, aceitar nativamente aplicativos feitos em Flash, e etc.

Podcasts e sites opinativos discutiriam opiniões divididas sobre a decisão da Apple. Draconiana para alguns, prudente para outros. Nos tribunais, Phil Schiller, ex-VP de Marketing de Produto da Macromedia, seria uma das testemunhas-chave, afinal, simplificando um pouco a história, a Macromedia era a dona do Flash e foi comprada pela Adobe em 2005.

Em meio a isso tudo, não faltariam especulações de que haveria uma possibilidade bastante real da Apple ser obrigada a mudar o comportamento do iOS e permitir a compatibilidade com o Flash, exatamente da mesma forma que hoje discute-se (de maneira válida) a possibilidade dela ser obrigada a permitir App Stores paralelas ou, ao menos, sideloading no iOS.

Pensando nisso tudo, uma reflexão vem-me à mente: o mundo da tecnologia está objetivamente melhor sem a existência do Flash. E digo isso tendo passado ANOS desenvolvendo em Flash, plataforma que eu sempre achei divertidíssima de usar. Mas apesar da mão pesada da Apple para defender o próprio ponto, era facto que o Flash não era seguro. Era facto que ele não era eficiente e exigia muito processamento. Era facto que essa era uma tecnologia que apresentava menos possibilidades do que o HTML5 e congêneres.

Ainda assim, acho que se essa briga se iniciasse hoje em dia, dificilmente a Apple estaria livre da possibilidade de não ser obrigada a conceder, de alguma forma, à pressão da Adobe (e do público!) para aceitar Flash no iOS.

É bem verdade que isso poderia ter mérito. Dá para ver como o banimento do Flash no iOS pode ter sido uma atitude anticompetitiva. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que não foi a decisão certa também.

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