Nem toda vantagem competitiva é anticompetitiva

Nem toda vantagem competitiva é anticompetitiva

Iniciativas e acusações de práticas anticompetitivas sobre a Apple e outras grandes empresas como a Google estão a tornar-se demasiado recorrentes.

Marcus Mendes
∙ 4 minutos de leitura

Como vocês já devem ter percebido, eu costumo acompanhar com muita atenção e interesse os movimentos de bastidores que afetam o mundo da tecnologia e, mais especificamente, o da Apple.

Faço isso porque é parte do meu trabalho, e claro, para tentar antecipar-me às decisões e às tendências do mercado e traduzi-las durante 10 minutos por dia no Loop Matinal, mas faço isso por prazer também, porque acho interessantíssimo observar como o mundo da tecnologia (e, de novo, o da Apple) é interpretado pelos que em Hogwarts são chamados de muggles, ou seja, os que não fazem parte daquele mundo, e raramente conseguem compreendê-lo.

O problema é quando os muggles estão numa perigosíssima posição de domínio, ou de destaque, que os possibilitam a assinar leis, regulamentar mercados e, essencialmente, mudar o rumo da História.

Acho que estamos a viver este momento com a infinidade de investigações de práticas anticompetitivas que pipocam aos montes ao redor do mundo todos os dias. Quem costuma ouvir o Loop Matinal já deve ter percebido que há muito tempo eu não consigo publicar um episódio sequer, sem falar sobre uma nova investigação que é aberta contra o Facebook aqui, outra contra o Google acolá, duas ou três contra a Apple e a App Store ali e mais lá…

Nos meus textos por aqui, acho que já consegui deixar bastante clara a minha posição quanto ao assunto da App Store. A Apple precisa sim ajustar o modelo de negócio para a realidade de 2021, afinal, o mercado mudou muito desde seu lançamento em 2008.

A Apple perdeu a oportunidade de fazer isso de forma proativa, quando teria sido vista como benevolente e parceira dos desenvolvedores à qual ela deve TANTO pela ajuda no sucesso do iPhone, perdeu a oportunidade de fazer isso de forma preemptiva quando percebeu que as investigações seriam inevitáveis, e perdeu a oportunidade de fazer isso de forma reativa, após o início dos processos, e tudo indica que ela terá que fazer alguma coisa de forma punitiva e sem qualquer controlo sobre o resultado final. Parabéns aos envolvidos.

Pois bem. Do outro lado do espectro, estão as pressões do mercado e investigativas que me parecem fazer bem menos sentido. Um dos exemplos das pressões do mercado veio do Facebook nesta última semana. Eles encomendaram um estudo com a Comscore que concluiu que das 20 apps mais usadas do iOS, 15 são nativas do sistema, e no Android das 20 apps mais usadas, 12 são nativas do sistema. O argumento deles é que tanto a App Store quanto a Play Store são monopolistas, e… acho que é isso. Este é o argumento. Eles não trazem nenhuma proposta concreta de alternativa, mas tentam comprovar que nem o sistema aberto do Google, e nem o sistema fechado da Apple são justos. Ficou confuso? Eu também.

Apps nativas, a meu ver, não são uma prática monopolista. A alternativa seria o que, no momento de configurar o iPhone teríamos que percorrer uma lista com TODAS as aplicações existentes no mundo para e-mail, depois para mensagens, depois de navegador, depois de fotos, câmera, calculadora, previsão do tempo, bolsa de valores, notas, lembretes, etc, etc, etc? E qual seria a ordem dessa lista? Ordem alfabética seria anticompetitivo com apps que começam com Z. Ordem aleatória estaria sujeito a programações tendenciosas e falhas na lógica de randomização. A alternativa então seria… os telefones virem instalados com todas as apps do mundo? Acho que não, né?

O que era para ser um estudo promovendo a necessidade de uma concorrência mais nivelada provou ser um tiro no pé estratégico do Facebook, que apenas comprovou que as pessoas só querem uma app para ler e-mail, outra para navegar na web, e se dão por satisfeitas. Nós, que somos antenados em tecnologia, conhecemos as alternativas e procuramos sempre algo mais aprofundado. Já o Facebook, bem, o Facebook continua a tentar encontrar uma forma de se enfiar nos nossos telefones após ter perdido a guerra do mobile com um telemóvel que ninguém quis.

Mas e as pressões investigativas, além das de mercado que eu citei acima? Falemos então do tão discutido direito de reparar (right to repair). Já começo a ver iniciativas que defendam modelos únicos de fabricação e de manutenção de telefones, facilitando o acesso a peças de substituição e quebrando a ditadura dos componentes soldados em placas lógicas impenetráveis. Não preciso nem explicar por que isso é algo inatingível, não é mesmo? Sendo muito prático, o iPhone só é o iPhone porque ele é montado desta forma. Obrigar modificações seria, necessariamente, obrigar a abrir mão de otimizações essenciais para garantir esta performance, com esta grossura (ou finura) às quais estamos acostumados.

Vi alguém brincar no Twitter que o próximo passo será obrigar a Apple a permitir a escolha do ecrã do iPhone, para promover a competitividade no mercado de displays. A seguir, consigo vislumbrar uma lei que a impeça de incluir o logo da maçã na parte de trás do telefone, para não prejudicar a visibilidade de outras marcas menos ubíquas. Aliás, já sei! Que tal obrigar a Apple a lançar alguns iPhones com o nome Galaxy, ou Nord, para promover um clima de diversidade e mais escolha?

Estou a exagerar, é claro, mas esta é a forma como tenho visto algumas dessas iniciativas e de acusações de práticas anticompetitivas que, no fim da contas, são apenas o resultado da evolução natural de um produto que, pelo próprio sucesso, tem força e lastro suficientes para caminhar e crescer mais rápido do que o resto do mercado. Não é mesmo, Facebook?

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