No evento da última semana, a Apple confirmou um rumor que todos já vinham a dar como certo há alguns meses: os iPhones vão perder o carregador USB de parede.

Apresentada no evento de setembro para anunciar o novo Apple Watch, a ideia foi retratada mais uma vez como um importante e justificado passo com motivações ambientais: remover os carregadores das caixas significa extrair menos matérias-primas da Terra, significa introduzir menos lixo eletrónico do mundo, e significa reduzir as embalagens a ponto de permitir que um mesmo navio ou avião levem mais unidades de uma só vez (poupando, assim, combustível e emissão de gases na atmosfera).

Todos esses argumentos, é claro, fazem completo sentido não só pela urgência com a qual esse assunto deve ser tratado, mas também levando em conta há quanto tempo a Apple fala sobre o meio ambiente.

Essa preocupação em prestar contas e chamar à atenção para medidas benéficas para a natureza é algo que, mesmo em eventos, precede até mesmo a importância que a Apple dá para os recursos de privacidade ao anunciar cada produto ou recurso.

Quem acompanha os eventos de iPhones desde as primeiras versões provavelmente se lembrará de quanto tempo faz que escutamos que o ecrã é “PCV-free”,  “Beryllium-free”, “mercury-free”, e assim por diante. Até mesmo no anúncio do primeiro iPad, lá estava o slide prestando as contas ambientais.

Portanto, não é uma surpresa que a Apple tenha usado o argumento de proteção do meio ambiente para justificar uma das decisões mais polémicas dos últimos anos. Já prevendo o bafafá e o chororô de grandes proporções que isso tomaria, o subtexto de falar sobre o meio ambiente para justificar essa decisão é claro: “estamos a tirar os fones de ouvido e carregadores de parede da caixa porque queremos salvar o mundo, e quem achar mau é uma péssima pessoa. Como assim não está disposto a fazer um pequeno sacrifício em prol do bem da humanidade?”

O problema, aliás, o grande problema, foi o argumento complementar que a Apple deu para justificar a decisão. No evento desta semana, Lisa Jackson disse que já existem mais de 2 biliões de adaptadores de energia da Apple espalhados pelo mundo e, por isso, a partir de agora a caixa virá apenas com o cabo USB….C?!

Mas, espera aí. O adaptador de parede USB-C passou a vir na caixa dos iPhones apenas no ano passado, e ainda assim apenas nas caixas dos modelos Pro! Isso significa que não existem mais de 2 bilhões de adaptadores mundo fora prontos para serem usados para recarregar os novos iPhones, mas sim (sendo muito otimista) 5% desse total.

Além disso, existe toda a questão do preço. Durante o evento, a Apple anunciou que os modelos iPhone 12 mini e iPhone 12 custarão US$ 699 e US$ 799, respectivamente nos EUA, mas não é bem assim. Esses preços são para duas operadoras, sendo US$ 30 mais baratos do que o preço normal.

Isso significa que o iPhone ficou mais caro, e deixou de incluir na caixa acessórios que juntos custam mais ou menos US$ 50. É bem verdade que para alguns modelos ela aumentou a capacidade de armazenamento na opção mais básica, e isso não pode ser relevado já que estamos a falar justamente sobre o custo-benefício na sua definição mais literal. No entanto, é impossível olhar para essa manobra e não ver a justificativa do meio-ambiente com bastante desconfiança para tentar acreditar que estamos a salvar o planeta um cabo de cada vez.

Seja como for, tenho para mim duas verdades: num primeiro momento a concorrência irá bater na Apple, dizendo nas suas campanhas que os seus telefones vêm com cabo e carregador e, a partir do ano que vem, irão remover esses acessórios da caixa da mesma forma.

Foi assim com o abandono da entrada de 3,5mm para fones de ouvido, foi assim com a adoção dos recortes no ecrã para tirar sarro do notch dos iPhones, e inevitavelmente será assim quando a concorrência também perceber que pode aumentar o lucro por unidade vendida ao deixar de incluir estes brindes na caixa.

Já a segunda verdade é a seguinte: no fundo, no fundo, o fim dos fones de ouvido e dos carregadores de parede incluídos na caixa não terão impacto nenhum nas vendas dos iPhones. Muita gente irá detestar o facto de não poder mais contar com esses brindes, mas comprará os iPhones mesmo assim. A seguir, assim como foi no caso da entrada do fone de ouvido, essa (aparente) enorme polémica cairá no esquecimento mais rápido do que o tempo de vida útil dos primeiros cabos de 30 pinos.