iPhone Duo: o fim do cartão SIM põe as operadoras à prova
E já na próxima semana que chega às lojas o iPhone Duo, o primeiro modelo dobrável da Apple. As atenções estão viradas para a dobradiça, o possível vinco no ecrã e o seu preço astronómico. Mas há um pormenor nas suas especificações que também merece a tua atenção: o iPhone Duo funciona exclusivamente com eSIM. A Apple é explícita: "não é compatível com cartões SIM físicos". Não há ranhura, não há clipe, não há cartão.
Não é uma estreia absoluta no portfólio de iPhones, como julgo que sabes. O iPhone Air, à venda em Portugal desde o ano passado, já dispensava o cartão físico. Mas o Air nunca deixou de ser um modelo de nicho. O Duo chega com outra ambição e promete ser o grande protagonista do catálogo da Apple. Com ele, o eSIM deixa de ser uma particularidade de alguns modelos para se tornar uma exigência para quem quer o primeiro iPhone dobrável. Curiosamente, o iPhone 18 Pro vendido em Portugal continua a aceitar nano-SIM.
A tecnologia tem vantagens evidentes. Um eSIM não pode ser retirado de um telemóvel roubado, permite guardar vários números e simplifica a utilização de planos móveis em viagem. O problema não está na tecnologia. Está na forma como Portugal a adotou.
Segundo a ANACOM, no final de 2025, um em cada cinco acessos móveis em utilização era pré-pago, enquanto os acessos com eSIM rondavam o meio milhão, menos de 3% do total. Portugal continua a ser um país habituado aos cartões físicos. O cartão comprado no quiosque, o cartão que passa para o telemóvel antigo quando o novo se avaria, o cartão que se retira com um brinco porque o clipe desapareceu. São gestos de décadas que o Duo torna impossíveis.
O telemóvel de reserva talvez seja o exemplo mais evidente. Sem uma Apple Store em Portugal, uma reparação pode significar vários dias sem o equipamento habitual. Até agora, bastava retirar o cartão SIM e colocá-lo num telemóvel antigo, esquecido numa gaveta. Com o Duo, essa solução deixa de ser tão simples. É preciso transferir o eSIM, um processo que depende da operadora e nem sempre é imediato.
A Apple anunciou até uma nova funcionalidade no iOS 27, o iPhone Handoff, que permite alternar o mesmo número entre dois iPhone. Mas, no lançamento, o suporte está limitado à T-Mobile, nos Estados Unidos, e à Telekom, na Alemanha. Nenhuma operadora portuguesa consta da lista...
E é precisamente nas operadoras que começam as diferenças. A MEO disponibiliza a conversão para eSIM sem custos. A Vodafone permite fazê-la gratuitamente através da aplicação, mas cobra 2.71€ a quem preferir deslocar-se a uma loja. Na NOS, a conversão também é gratuita na aplicação e no próprio iOS, mas custa 10 euros ao balcão. Em ambas, quem precisa de ajuda presencial é precisamente quem paga mais.
A DIGI, que entrou no mercado português em 2024, também disponibiliza o eSIM gratuitamente. O processo, porém, exige o envio de uma cópia do documento de identificação através da My DIGI, a espera por uma SMS nas 24 horas seguintes e a leitura de um código QR a partir de outro equipamento, com um limite de três tentativas. Na lista de dispositivos compatíveis publicada no site, consultada a 6 de outubro, o modelo mais recente da Apple ainda era o iPhone 17 Pro Max.
Há outra diferença menos visível, mas igualmente importante. Na página em que a Apple identifica as operadoras portuguesas compatíveis com a Transferência rápida do eSIM, funcionalidade que permite passar um número de um iPhone para outro sem contactar a operadora, aparecem apenas a MEO, a NOS e a Vodafone.
Para quem está habituado a resolver tudo na aplicação da operadora, estas limitações podem parecer menores. Mas nem todos os compradores do Duo serão entusiastas de tecnologia. Haverá quem o receba de presente, quem nunca tenha usado um eSIM e quem continue a preferir o atendimento presencial. Para essas pessoas, a primeira experiência com o iPhone mais avançado da Apple pode começar com um código QR que não conseguem ler ou uma deslocação à loja para ativar aquilo que antes funcionava com um simples cartão.
A Apple fez a sua parte: eliminou o cartão físico e transformou o eSIM na única opção. Agora cabe às operadoras portuguesas acompanhar essa mudança. Isso significa conversões gratuitas, independentemente do canal, transferências rápidas sem intervenção humana e listas de compatibilidade atualizadas antes de os equipamentos chegarem às lojas, não semanas depois. O clipe pode finalmente ir para o lixo. O balcão, pelos vistos, ainda não.




