O meu desejo para 2021 é: por favor, não seja um 2020 S!

O meu desejo para 2021 é: por favor, não seja um 2020 S!

Marcus Mendes
∙ 4 minutos de leitura

Considerando os óbvios desafios que permearam 2020, é quase inacreditável a quantidade de bons produtos, bons lançamentos e enormes avanços que vimos sair de Cupertino ao longo do ano. E o mais irónico é que durante os dois meses e meio em que a maior parte do mundo teve uma vida relativamente normal, nada de muito relevante aconteceu.

É bem verdade que em janeiro e fevereiro, nada de realmente importante acontece no mundo da Apple. Enquanto o mercado se esbofeteia por atenção no meio da CES e os seus eventos-satélite, o primeiro trimestre da Apple costuma ser quieto após a avalanche de lançamentos do final do ano anterior.

E que avalanche. Está certo que a pandemia muito provavelmente atrapalhou os planos da Apple (os quais nunca saberemos ao certo), mas definitivamente fazer três eventos em setembro, outubro e novembro não era a ideia original. Isso sem contar os produtos que foram anunciados apenas por meio de press releases.

Mas no ano do improviso, a tecnologia venceu. No ano mais atrapalhado, com fábricas e fronteiras fechadas por boa parte do período, tivemos lançamentos enormes e pequenos, desde o M1 até ao HomePod mini, passando pelos AirPods Max e, obviamente, os iPhones 12.

Inicialmente, a crónica de hoje seria sobre o futuro. Sobre o que esperar da Apple para os próximos 12 meses, agora que pelo menos do ponto de vista de estrutura e cadeia de suprimentos, o pior já parece ter passado. Mas a verdade é que tirando as obviedades, como por exemplo novos iPhones em setembro e novos iPads em breve, está difícil de tentar prever algo muito profundo ou que seja resultado de um grande insight.

E a dificuldade em falar do futuro está no facto de que parece que ele já aconteceu. Com o M1, a Apple não só definiu claramente o que podemos esperar do mercado de Macs em 2021, ela informou completamente o mercado o que todos esperam não só para 2021, mas daqui para frente.

Privacidade? As cartas também já foram dadas. A Apple deixou de lado as conversas de bastidores e resolveu travar uma batalha extremamente pública contra o Facebook (ou melhor, em resposta a ele) definindo aqui também o caminho que não só ela, mas todo o resto do mercado precisará seguir se quiser manter a confiança (e os dólares) dos clientes.

Os iPhones, como sabemos, parecem estar em altitude de cruzeiro. Aqui é onde a Apple parece ter optado por deixar de lado as grandes apostas, e vem adotando pequenas e previsíveis evoluções pontuais ano após ano, especialmente quanto às câmaras. É bem verdade que pode ser que recebamos em 2021 um iPhone sem entrada Lightning, ou talvez com o Touch ID de volta. Mas assim como eu comentei na crónica "O próximo iPhone será o mais importante que a Apple já lançou", os iPhones de 2020 foram uma forma da Apple sinalizar que ele já atingiu um patamar de maturidade que dificilmente o fará mudar muito pelos próximos anos. (Mas que eu ainda torço pela extinção do notch, isso eu torço).

Os iPads são uma verdadeira incógnita. Quem me acompanha há mais tempo sabe que durante alguns anos eu usei exclusivamente o iPad Pro para trabalhar, tendo ficado boa parte de 2016 e 2017 sem ter sequer tocado num Mac, mas isso passou. Eu ainda gosto muito do iPad, mas hoje torço pelo sucesso dele assim como torço pelo sucesso profissional de um amigo que já foi mais próximo. A minha sincera sensação é que cada vez que a Apple anuncia um novo iPad, iPad Pro, novo velho iPad Air Pro, parece-me que ela acaba de apresentar exatamente o mesmo produto que havia acabado de apresentar meses antes.

Mas, parece estar a dar certo e, mais importante que isso, parece que cada vez mais gente está feliz e satisfeita com o iPad. Ótimo para todos.

Para a Apple TV e para o Apple Watch, eu não tenho muito a acrescentar (ou prever) além do que escrevi nas crónicas “A Apple TV segue perfeita: perfeita para ninguém” e “O Apple Watch é o produto mais empolgante da Apple na atualidade”. Na verdade, enquanto da Apple TV eu nem sequer tenho vontade de falar, do Apple Watch sim eu poderia continuar discorrendo por horas, mesmo que apenas para repetir as grandes expectativas que eu tenho pelo produto.

A parte chata é que depois de um ano tão absolutamente repleto de boas novidades em (quase) toda a linha de produtos da Apple, parece-me que 2021 será, sobretudo, o ano em que a empresa colocará ainda mais combustível nos motores que aceleram o motor do faturamento dos serviços. Apple TV+, Apple Music, Fitness+, Apple One, App Store (ótimo! Pelos desenvolvedores)… eu acho que em dezembro nós estaremos aqui a falar sobre a quantidade de coisas que a Apple acrescentou a cada uma dessas categorias, e como trimestre após trimestre ela conseguiu deixar o faturamento de serviços cada vez mais próximo do faturamento dos iPhones.

Não que haja nada de errado com isso. Afinal, eu não sei vocês, mas eu ainda sinto um resquício da empolgação do ano passado sobretudo após o lançamento dos Macs com M1.

Mas se eu puder contar um segredo aqui para vocês, este segredo é: eu espero que tenhamos mais do que evoluções pontuais e previsíveis nos produtos da Maçã, afinal, eu precisarei de assuntos interessantes para preencher as próximas 52 semanas por aqui.

Um feliz ano novo a todos!