Afastado dos ecrãs desde 2023 com You People da Netflix, Jonah Hill está de regresso como realizador, co-autor e ator na nova aposta da Apple TV: "Consequência", que chegou à plataforma no passado dia 10 de abril.
Em "Consequência", Keanu Reeves é a estrela de Hollywood Reef Hawk que ao descobrir um plano de extorsão ligado a um vídeo misterioso, decide embarcar numa jornada de redenção para se redimir, confrontar os seus demónios e evitar o cancelamento.

Naquela que é a sua segunda obra de ficção, Jonah Hill apresenta dificuldades em lidar com o tom da película. De um lado, há uma sátira escrachada de Hollywood com um humor extremamente óbvio e quase a beirar o mau gosto personificado na personagem que Jonah Hill interpreta, o grotesco gestor de crises Ira.
Do outro, há uma tentativa de um sentimentalismo introspectivo sobre uma pessoa que já não sabe quem é, apenas performa a versão que mais vai agradar os outros. Por não saber para onde apontar, a obra fica perdida, dissonante e muito menos interessante do que poderia ser.
Vale a pena também relembrar que Jonah Hill também lidou com problemas semelhantes ao ser acusado publicamente por uma ex-namorada de ser controlador e abusivo, acusações que ele nunca confirmou ou refutou. Geralmente, este tipo de considerações não deveriam ter lugar numa análise destas, e o filme até brinca com a ideia de “separar a arte do artista”, mas a partir do momento que o próprio Hill abraça a chamada “cancel culture” na sua obra, é impossível disassociar o que sabemos dele daquilo que o filme tenta ou não dizer.
Keanu Reeves: Um protagonista que não sustenta a narrativa

E até a escolha do universalmente amado Keanu Reeves não parece inocente, mas sim um mecanismo de defesa de Hill. Ao projetar as ansiedades e medo de dar um passo em falso numa figura inatacável como Reeves, Hill cria um escudo. Infelizmente, Keanu não consegue sustentar dramaticamente o personagem, acabando por ser uma âncora demasiado frágil que só faz o filme afundar-se ainda mais.
A tentativa de introspeção que o filme tenta fazer também se esvazia num narcisimo puro, porque o foco não está nos atos negativos do protagonista, mas sim no "sofrimento" de ser julgado pelos outros, prejudicando qualquer tentativa de reflexão genuína.
Visualmente, o color grading extremamente saturado em tons amarelos é cansativo, e não consegue esconder a pobreza visual e artificial. Também a banda sonora de Jon Brion tenta estabelecer um tom mais perto do thriller, acabando por se tornar bastante insustentável a certa altura e contribuindo para a confusão tonal da obra.
Martin Scorsese: O destaque inesperado

A maioria do elenco não consegue ir muito além dos estereótipos, e nem as cenas em que Reef precisa de pedir desculpa àqueles que prejudicou no passado atingem o efeito desejado já que é quase tudo com base em diálogos expositivos, mas há uma excepção.
Na pele do amargurado agente de pequenos talentos Red Rodriguez, Martin Scorsese volta a provar que o cinema perdeu um grande character actor. Em poucos minutos, Scorsese consegue estabelecer quem é Red, e fazer com que sintamos empatia por este personagem.
Esteticamente pobre e narrativamente covarde, "Consequência" falha ao não perceber que a própria obra é refém da visão limitada e narcisistica do seu criador, e apenas fica uma jornada dolorosa, perdida, e acima de tudo nada cativante.
Nota: 3/10
País de origem: Estados Unidos
Realizador: Jonah Hill
Escrito por: Jonah Hill e Ezra Woods
Elenco: Keanu Reeves, Jonah Hill, Martin Scorsese, Cameron Diaz, Matthew Bomer, Susan Lucci