Quem acompanha o podcast Área de Transferência, em que costumo ser mais opinativo e mais descontraído do que no Loop Matinal, provavelmente sabe como gosto de usar o meu homescreen do iPhone: papel de parede preto, pouquíssimas apps à vista, quase todas sem permissão para exibir a bolota vermelha com a contagem de notificações.

Isso faz parte de uma busca pessoal que tenho por simplicidade onde é possível. No dia a dia, utilizo camisolas pretas sem estampa. Em casa, não há quadros nas paredes ou grandes objetos decorativos espalhados pelas divisões. Na verdade, moro no mesmo apartamento desde 2017 e uma das divisões continua completamente vazia, excepto pelo meu telescópio e uma mala de viagem empoeirada com um Atari 2600 dentro.

A busca por essa simplicidade, que eu também poderia definir como a busca pela neutralização do bombardeio de informações e estímulos visuais onde possível, vem da natureza do meu trabalho. De dia, trabalho como freelancer no mercado publicitário. A rápida absorção de um grande volume de informações em briefings de criação é essencial para fazer um bom trabalho. À noite, lido com o Loop Matinal que também envolve a exposição, consumo, triagem e geração de volumes enormes de informações e detalhes com bastante atenção.

Com esse bombardeio constante, eu naturalmente reagi tentando reduzir a quantidade de estímulos onde possível. No Twitter, bloqueio centenas de palavras de assuntos que não me interessam. No Instagram, sigo pouquíssimas pessoas e procuro fugir de quem PRECISA postar stories e mais stories a todo momento. Não que exista algo de errado com isso, que fique claro. Apenas não é algo que se encaixe nas minhas preferências de consumo de redes sociais.

Bom, com a chegada dos widgets no iOS 14 e, sobretudo com o estrondoso sucesso da aplicação Widgetsmith que permite uma customização gigante de widgets envolvendo fotos, textos, cores, fontes e etc, as redes sociais têm sido inundadas nos últimos dias com prints de customizações de homescreens, com direito também à substituição dos ícones oficiais das aplicações por ícones customizados por meio de um truque permitido pela app Atalhos.

E assim como com qualquer tipo de ferramenta artística, diferentes pessoas têm diferentes níveis de… aptidão para a coisa. Por isso, no meio dos milhares e milhares de prints que têm aparecido nas redes sociais com todo o tipo de customização, existem coisas realmente horripilantes estampando iPhones mundo afora.

Pois bem. Uma das alegrias de fazer podcasts é que, na minha opinião, a relação com os ouvintes é uma das mais próximas que existe quando o assunto é quem cria e quem consome o conteúdo. E na condição de uma pessoa que é bastante peculiar quanto a preferências gráficas e bastante criteriosa com alinhamentos e outros pormenores que fazem parte do todo da experiência gráfica, venho sendo bastante perguntado sobre ou sendo direcionado para muitas dessas customizações horripilantes. Percebo que a expectativa é que eu me junte ao coro que julga inaceitável este tipo de nível de customização do iPhone, e mais do que isso, fique ofendido com as customizações aterrorizantes que são partilhadas por aí.

Sinto informar, mas isso não me incomoda. É claro que se EU fosse obrigado a utilizar essas coisas feias, aí sim teríamos um problema. Estou até agora em busca do widget perfeito do calendário pois cada widget resolve uma necessidade minha, mas cria um outro problema em seguida. Atualmente estou utilizando o widget nativo da Apple, cuja bolota vermelha indicadora da data está deslocada 2 pixels para a direita. É a minha terceira tentativa de conviver com isso.

Mas este é o meu telefone. É a minha experiência. É para isso que eu tenho que olhar a cada uma das centenas de vezes que destravo o dispositivo todos os dias. Aí eu permito-me ser o mais criterioso, chato, cri-cri, aborrido, mimimizento e bocó que a escala Marcus Mendes de Faniquitos® comporta.

Quanto ao telefone dos outros, a minha única preocupação é que eles consigam chegar a um resultado que lhes traga tanta alegria e satisfação quanto o meu homescreen traz a mim. Um dia desses, Federico Viticci tweetou que a customização dos iPhones é uma forma de liberdade de expressão, e cada um está dentro do próprio direito de se expressar como preferir. Concordo plenamente. Eu acho lindo que cada utilizador de iPhone FINALMENTE consiga customizar o seu dispositivo ao máximo, mesmo que gere um resultado… graficamente questionável. Se te deixa feliz, vai fundo!

Só não me peças para usar esse troço.