Ninguém é apenas uma personagem

Todos temos a tendência de colocar as pessoas dentro de pequenas caixinhas, como uma espécie de função de acesso rápido ao que define as personalidades de cada um. Isso acontece com pessoas que conhecemos, com atores, e também com os executivos das empresas que costumamos acompanhar.
Escrito por Marcus Mendes e
3 mins de leitura
Ninguém é apenas uma personagem
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Uma coisa que provavelmente sabes é que todos os que te conhecem têm uma imagem meio fixa a teu respeito.  “Fulano é engraçado”. “Beltrano é esquecido”, etc. Mas Fulano nem sempre é engraçado. Fulano tem dias bons e maus, e por vezes nem sequer sabe que é visto como engraçado apenas por fazer uma ou outra piada mais divertida do que a média. Já Beltrano lembra-se de muitas coisas (exceto, claro, das que se esquece), e pode até achar injusto ser visto como “o esquecido” da turma. Aliás, pode ser que o Fulano seja tão esquecido quanto o Beltrano, ou até mais, apesar da fama de ser engraçado.

O que quero dizer é que todos nós temos a tendência de colocar as pessoas dentro de pequenas caixinhas, como uma espécie de função de acesso rápido ao que define as personalidades de cada um. Isso acontece com pessoas que conhecemos, acontece com atores que vemos na TV e nem sequer sabemos como são fora dos personagens que interpretam, e acontece até mesmo com os executivos das empresas que costumamos acompanhar no mercado de tecnologia.

Tomemos Jony Ive como exemplo. Não é raro Ive ser descrito como uma figura obssessiva, perfeccionista, e compadecida. Essas impressões são acompanhadas de inúmeras histórias a respeito da sua intransigência com a forma dos produtos da Apple, acompanhada do cuidado que sempre teve com as suas equipes para não ferir os sentimentos de ninguém ao rejeitar ou criticar alguma ideia. Mas é claro que colocar Jony Ive apenas dentro dessas caixinhas é dizer que Ive não tem nenhum atributo a não ser esses, o que seria um absurdo. Certamente, assim como todos nós, Jony Ive tem os seus momentos de auto-confiança e auto-desconfiança. Tem os seus momentos de atenção e de desatenção. Tem acertos e erros, egoísmos e altruísmos, etc. O eco unidimensional que vem sendo repetido a respeito dele (especialmente desde a morte de Steve Jobs) transformou-o quase numa caricatura, eliminando completamente a sua humanidade.

E digo o mesmo para Tim Cook. Quando pensamos nas formas como Tim Cook é descrito, pensamos em coisas relativamente parecidas. Cook é sereno, mas decisivo. Cook é compreensivo, mas rigoroso. Certo? Mas da mesma forma como Ive, reduzi-lo a essas percepções públicas (muitas vezes contadas ou retratadas indiretamente no tortuoso caminho entre Cupertino, as redações do mundo da tecnologia, os blogs especializados e, enfim, os nossos olhos) eliminam um pouco da sua humanidade. Cook é, sim, tudo isso, mas ao mesmo tempo ele certamente é também o mesmo conjunto de defeitos e talentos que formam cada um de nós.

O motivo pelo qual eu trago tudo isto à tona é pelo recente lançamento do livro After Steve: How Apple Became a Trillion-Dollar Company and Lost Its Soul, do jornalista Tripp Mickle. O livro, resultado de uma infinidade de entrevistas com pessoas que conviveram com Ive e com Cook durante o período que levou ao pedido de demissão de Ive, tem um ponto extremamente válido a se defender: sem Jobs, Ive de facto perdeu o seu irmão criativo e encontrou sob Tim Cook uma Apple diferente a ponto de tê-lo feito desejar ir embora. Nada disso é refutável. São factos. Mas ao mesmo tempo, parece-me injusta a atitude de retratar Ive e Cook como essas figuras que fomos levados a acreditar (por uma exaustiva repetição de fontes anónimas) que são incompatíveis. Quando pensamos em Ive, Cook, ou até mesmo Jobs, pensamos apenas no que chega aos nossos olhos e ouvidos por meio dessas fontes anónimas que têm os seus próprios motivos para conversar com jornalistas. Cook não é só o Cook que conhecemos. Ive não é só o Ive que conhecemos. Eu não sou só o Marcus Mendes que vocês conhecem, e vocês certamente não são apenas a versão de vocês que os vossos colegas de trabalho costumam conhecer.

É claro que para fãs da Apple, a leitura do livro de Mickle faz-se tão interessante e essencial quanto as brilhantes biografias de Jobs, Ive e Cook que foram lançadas nos últimos anos. Mas ao mesmo tempo, devemos sempre lembrar que nenhum ser humano é esta figura imutável e unidimensional que uma simples definição com um ou dois adjetivos é capaz de encapsular.

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