Gambito da Maçã

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A luta nos tribunais sobre a App Store continua e a Apple parece não estar a conseguir uma boa posição.

Marcus Mendes
∙ 3 minutos de leitura

Há quase 1 ano, eu escrevi a crónica “É o fim da App Store como a conhecemos”, em que eu resumi alguns exemplos recentes de casos de desenvolvedores insatisfeitos com a App Store e a forma como eles estavam a lidar com isso, aparentemente livres do medo de represálias por parte da Apple. Da mesma forma, defendi que a Apple já sabia que a era dourada (para ela) da App Store, em que ela ditava as regras sem qualquer tipo de consequências ou de resistência, estava perto do seu fim.

Pois bem. Cá estamos quase 1 ano depois, e esta relação antagónica entre a Apple e a comunidade de desenvolvedores só se aprofundou. Eu sei que tenho falado bastante sobre isso aqui, mas é impossível não se entristecer com a forma como os desenvolvedores têm sido tratados pela Apple. Mas hoje, o foco é outro. Hoje, o foco será no facto de que a Apple já sabe que está a lutar uma guerra perdida quando o assunto é a App Store.

Digo isso por causa do documento que ela publicou nesta semana, intitulado “Building a Trusted Ecosystem for Millions of Apps – The important role of App Store protections”, em que ela enumerou todos os motivos que fazem da App Store a única forma confiável, segura e, principalmente, possível, de instalar aplicativos no iOS.

Ela cita exemplos de falta de segurança na concorrência (ou seja, no Android), defende a facilidade de uso do iOS, utiliza estudos e artigos académicos para embasar os seus argumentos, mas no fim das contas o documento funciona – a meu ver – apenas como um amontoado confuso de motivos vazios que a Apple continua a repetir para tentar, com sorte, convencer a si mesma de que são verdade.

Quando a Apple defende que a instalação de aplicativos por fora da App Store reduziria a segurança do iPhone, ela parte da premissa de que o sistema perderia completamente suas funções de segurança. Mas isto não é verdade. Como bem argumentaram Guilherme Rambo e Steve Troughton-Smith no Twitter, o sandbox do iOS continuaria. A validação e a assinatura da app continuariam. A possibilidade da Apple bloquear por completo o acesso à app em caso de uma verdadeira falha de segurança, também.

Quando a Apple defende que é injusto o facto dela ser alvo de investigações de antitrust, afinal, ela não tem o monopólio sobre o mercado móvel, isto é apenas parcialmente verdade. Ela sempre deteve, e continua a deter, bem mais de 50% sobre o faturamento global do mercado móvel. Desde sempre, o Android tem mais participação de mercado, a Google Play Store tem o dobro da quantidade downloads em relação à App Store, mas o faturamento da App tore nunca foi menor do que 50%. De acordo com a Sensor Tower, ele foi de 60% do todo no primeiro trimestre de 2021.

Quando a Apple defende que a App Store foi concebida para ser a melhor loja de aplicações do mundo… bem… eu acredito. Em comparação com a Play Store, é verdade que a qualidade geral dos aplicações para iOS sempre foi maior. E isso se dá, em grande parte, pela forma como a Apple sempre se preocupou em rejeitar apps de baixa qualidade, apps feias, apps sem grandes utilidades (quem se lembra da polémica do I Am Rich?). A App Store sempre foi o símbolo de uma galeria gigantesca de boas aplicações, e sempre foi um dos maiores pontos de diferenciação do iPhone. Este sim é um argumento do qual não dá para discordar.

Por isso, eu entendo a relutância da Apple com a ideia de abrir mão do controlo sobre quais aplicações podem ser instaladas no iPhone. (Repara que, não vou sequer tocar no assunto de que JÁ É POSSÍVEL fazer isso, senão o artigo ficaria com o dobro do tamanho). E também entendo que a Apple não possa usar isso como seu principal argumento, afinal, ele definitivamente não seria suficiente para convencer um juiz a permitir a manutenção da App Store como a única fonte de aplicações para o iPhone.

Mas quando vejo todos os outros argumentos que a Apple tem tentado emplacar para se defender desta mudança inevitável, fico a pensar se ela realmente acredita que está a convencer alguém. Ela está a jogar um jogo perigosíssimo de, a cada entrevista, a cada documento, a cada semana, fomentar ainda mais os argumentos da acusação. Ela está a facilitar demais o trabalho justamente de quem está do outro lado desta disputa. E ao invés de dar o braço a torcer e, de forma proativa desenvolver alternativas JUNTO com quem as está pleiteando, a Apple está a apostar o seu modelo de negócios inteiro em um blefe cujo desfecho parece-me não só inevitável, mas bastante previsível.

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