Resultados financeiros: quando boas notícias podem atrapalhar

Resultados financeiros: quando boas notícias podem atrapalhar

Bons resultados financeiros na Apple não são novidade. Mas o que contam os números?

Marcus Mendes
∙ 2 minutos de leitura

Na divulgação dos resultados financeiros da Apple nesta última semana, uma coisa ficou muito clara: a Apple já não se consegue defender das acusações de práticas anticompetitivas com os mesmos argumentos que ela vem repetindo desde o advento da App Store.

Durante toda a primeira etapa da luta contra a Epic, a Apple usou basicamente dois argumentos para se defender: o primeiro, bastante válido, foi o da segurança. A App Store de facto é a forma mais eficiente de manter um ecossistema seguro para dispositivos iOS, apesar de pessoas mais tecnicamente letradas do que eu no assunto afirmarem categoricamente que abrir a possibilidade de sideloading não resultaria, necessariamente, na redução da segurança do sistema.

O segundo, foi o da sustentabilidade financeira da App Store. E é aí que a base do argumento da Maçã começa a ruir. Neste último trimestre, a Apple faturou 81 milhões de dólares. Comparado com o desempenho financeiro de há 1 ano, isso representou um crescimento de 36%.

Desses 81 milhões, Serviços faturaram 17,5 milhões. Ou seja, 21% do total.

É bem verdade que a categoria de serviços não é composta apenas pelo faturação da App Store. Entram também Apple TV+, Apple Music, Apple News+, Apple Fitness+, iCloud+, Apple Arcade, Apple One, provavelmente a comissão (estimada) de US$ 15 milhões que a Google paga para ser o motor de pequisa padrão do iOS e macOS, e por aí vai.

Ainda assim, eu aposto que a faturação da App Store compõe pelo menos metade de toda a faturação da parte de serviços, especialmente considerando que a Apple TV+ e o Apple One ainda não estão a render dinheiro concreto para a empresa: o Apple Podcasts+ acabou de ser lançado, a Apple News+ é praticamente irrelevante, e o Fitness+ só está disponível numa lista diminuta de países.

Pois bem. Mas mesmo que metade desses 17,5 milhões sejam de facto oriundos da App Store, quem disse que faturar menos do que isso manteria a App Store financeiramente sustentável? Bem… a própria Apple. Neste relatório mais recente, ela reportou uma margem média de lucro de 43,30% em toda a operação. Isso significa que a cada US$ 100 que alguém pagou para a Apple, ela pagou fornecedores, funcionários, marketing, distribuição, estrutura, advogados, cozinheiros e empregados de limpeza dos escritórios, luz, água, telefone, impostos (bem, mais ou menos, não é?) e internet, e ainda assim  lucrou US$ 43,30.

É claro que o lucro do iPhone, que envolve peças físicas, distribuição e etc. é bem diferente do lucro de um serviço que pode ser distribuído pela internet e tem um custo bem menor. Por isso, eu aposto (quantas apostas nesta crónica, não é?) que a margem de lucro da App Store seja muito, muito superior a esses 43,3%, e a margem de lucro dos iPhones e Macs, por exemplo, seja muito, muito menor.

Durante a ligação para comentar os resultados financeiros, Tim Cook precisou andar numa corda bamba para mostrar otimismo e satisfação com os resultados, sem tocar nas implicações… menos delicadas do que todos esses recordes significam. Ao mencionar diretamente o caso da Epic, Cook adotou a perigosa estratégia que dita que a melhor defesa é o ataque, seguindo a linha que a própria Apple tem adotado nessas situações.

Aliás, talvez seja justamente por isso que a Apple está a adotar esta posição ofensiva neste e em todos os outros embates anticompetitivos. Talvez ela própria saiba que, se precisar realmente de se defender, os números contarão por si próprios uma história para a qual não há muita defesa.

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